Reportagem: David Calderón – O Avançado dos grandes sonhos

David Calderón é uma alma ambiciosa que vê no futebol o percurso para o resto da sua vida. Uma pessoa com a qual vários jovens aspiradores a jogadores profissionais se podem identificar, o atleta dá-nos a conhecer o quotidiano nas divisões menos mediáticas do futebol profissional nacional e o seu percurso desde a formação por diversos clubes de Lisboa até à atualidade, um ano após a sua primeira entrevista para o nosso site.

Ao serviço do Oriental Dragon, um clube fundado apenas em 2014, o atleta luso-espanhol de apenas 21 anos tem demonstrado a sua qualidade nos relvados do Campeonato de Portugal, alimentando o sonho de um dia chegar ao mais alto patamar do futebol europeu. Face às lesões e ao tormento que o futebol português enfrentou devido à pandemia, os mais próximos do jogador falam de uma personalidade humilde e de um futuro em conjunto na elite da modalidade.

David Pimentel Calderón despontou para o mundo a 24 de novembro de 1999, filho de pai espanhol e mãe portuguesa. E, segundo o jogador, demonstrou desde nascença uma tendência evidente para o futebol. 

Sentado serenamente na sua casa simples e sóbria em Linda-a-Velha, o atleta de cabelo curto e despenteado recorda a influência que o pai teve no seu gosto pelo futebol. “Até tenho uma fotografia com o meu pai a dar-me uma bola com um mês ou assim”, afirma alegremente. 

A vontade de jogar futebol e o amor pelo desporto no geral é de família. Javier Calderón, pai de David, foi um antigo jogador das escolas do Sevilla Fútbol Club que sempre o apoiou incondicionalmente na sua paixão, jogando constantemente com o filho durante a sua infância. A imensa admiração pelo progenitor acentua-se cada vez mais ao falar dos seus tempos enquanto guarda-redes nas escolas do Sevilla Fútbol Club, algo que, ironicamente, nunca foi o desejo do jovem. “Não gostava de ficar na baliza, gostava muito de estar com a bola no pé”, relembra. 

David nunca teve dúvidas do caminho que queria seguir. A sua existência estava completamente dependente do futebol, numa chegando sequer a considerar apostar numa área que não estivesse ligada ao desporto. “A minha vida é e será sempre no mundo do futebol se tudo correr bem”, fala esperançoso.

A determinação em continuar no desporto é atribuída ao incentivo proporcionado pelo seu grande ídolo, Cristiano Ronaldo. Considerado por vários como um exemplo sublime de superação e trabalho árduo, o cinco vezes melhor jogador do mundo foi um dos principais impulsionadores da carreira do talentoso avançado, que modelou a sua ética de trabalho à semelhança do seu herói. 

Adepto assumido do Sporting Clube de Portugal, o atacante do Oriental Dragon também não esconde as preocupações que a mãe teve relativamente à sua escolha profissional, um sentimento partilhado por diversos pais ao redor do globo. Ao mesmo tempo, confessa que no mundo do futebol há uma incerteza contínua no que diz respeito ao futuro, uma ameaça que surge sobretudo na forma de lesões. “No futebol nunca se sabe, posso partir a perna, posso ter uma lesão grave e depois tenho que me sustentar com alguma coisa”, adverte o atleta para todos os aspirantes a futebolistas.

Excelência longe dos gigantes

Toda a formação do atleta foi feita em clubes da Zona Metropolitana de Lisboa, com início no Linda-a-Velha, em 2009. A partir daí, teve passagens pelo Algés, pelo Damaiense e pelo CAC antes de se tornar profissional nos escalões inferiores do país. 

De imediato, David evoca as lembranças de algum mal estar no começo da sua jornada, resultante do facto de ser um jogador luso-espanhol. “Por acaso até tive um problema no Linda-a-Velha quando era mais novo por causa de um rapaz que me insultava por ser espanhol e eu levava isso muito a peito”. Este é apenas um dos vários aspetos nefastos da formação de jovens atletas, às vezes marcado pela violência verbal. Momentos de tensão que, na perspetiva de David Calderón, têm origem no comportamento de alguns pais. “Se calhar a educação das crianças não foi a adequada. Acho que se fosse não aconteciam estas coisas”, lamenta o atleta.

A escolha de ingressar em equipas da sua terra deveu-se sobretudo às obrigações escolares. Consequentemente, teve de rejeitar propostas dos dois maiores clubes da capital portuguesa. “Quando tinha onze anos tive três propostas do Benfica e não fui. Para o Sporting também não fui, porque era em Alcochete e a minha mãe não queria que fosse para lá todos os dias”, relembra. 

Mas, ao contrário do que seria expectável, o jogador não demonstra grande arrependimento. Embora a sua vida do ponto de vista futebolístico pudesse ser melhor, o ponta-de-lança considera que, humanamente, o tempo que passou nos clubes dos subúrbios de Lisboa acelerou o seu crescimento em muitos aspetos e permitiu criar numerosos laços de amizade. Um deles foi Filipe Castro, que conheceu David em 2017 no período em que ambos se mudaram para o CAC. “Lembro-me como se fosse hoje, a primeira vez que o vi foi no primeiro treino de captações onde se destacou e até trocamos algumas palavras. Desde aí a amizade foi sempre crescendo até hoje”, contou-nos o bem humorado médio que joga atualmente no Porto Salvo.

A estadia no Clube Atlético e Cultural da Pontinha, localizado em Odivelas, foi das melhores épocas de David a nível profissional, tornando-se num dos melhores marcadores do campeonato, fator que o mesmo utiliza para justificar a sua preferência pela posição de ponta-de-lança. “Essa época abriu-lhe muitas portas para conseguir ingressar num plantel sénior que na minha opinião é uma das mudanças mais difíceis”, diz Filipe, que se apercebeu imediatamente que o colega era um prodígio diferenciado dos restantes em termos de personalidade. A imagem de um jovem modesto, simples e sorridente misturava-se com a vontade insaciável de ganhar do desportista, um retrato que sempre acompanhou o jogador por onde passou e que fez os colegas de equipa saírem constantemente em sua defesa. 

David guarda um carinho especial pelo clube, pois foi onde encontrou a melhor atmosfera entre atletas que até hoje vivenciou. No seu entender, um balneário onde todos se dão bem e se respeitam incondicionalmente uns pelos outros é fundamental para motivar qualquer membro da equipa a empenhar-se a 100%. “Faz muita diferença ter jogadores na equipa que não são só jogadores, são também melhores amigos”. Durante este período, experienciou todo o tipo de condições, realçando de forma categórica o seu talento, independentemente dos relvados que já pisou. No seu entender, a necessidade de se adaptar a diferentes relvados nos primórdios da sua carreira acabou por beneficiar o desenvolvimento dos seus atributos. 

Para o rapaz de dupla nacionalidade espanhola, a sua relação com os treinadores ao longo dos anos também lhe permitiu aprender aspetos importantíssimos da modalidade, variando consoante as capacidades de cada um. Todavia, foi o “Mister” João que teve um maior impacto na vida pessoal do jogador. Entre 2011 e 2016, foi o próprio que supervisionou todas as etapas do progresso do atleta no Algés e, posteriormente, no CAC, já a contar para a época 2017/2018, estabelecendo uma relação de grande afinidade. “Quero dar aqui especial agradecimento ao Mister João que para além de mister é um grande amigo”, manifesta com extrema gratidão.

Futebol e família em tempos de pandemia

Após concluir a formação, David Calderón iniciou a sua carreira nos escalões profissionais ao regressar ao clube da sua terra, o Linda-a-Velha. Na época 2018/2019, participou em 18 partidas do Campeonato Distrital de Lisboa, somando um total de 9 golos marcados. Uma marca impressionante que lhe valeu a mudança para o Pinhalnovense e, finalmente, a tão aguardada chegada ao Campeonato de Portugal.

De acordo com o jogador, a cobertura da quarta divisão do futebol português tem evoluído positivamente ao longo das últimas décadas, existindo cada vez mais plataformas de comunicação social que promovem as equipas de menor dimensão do país. A crescente competitividade e a chegada de jovens talentosos permitiram à competição alcançar um prestígio que anteriormente parecia inconcebível. “São equipas muito aguerridas. No Campeonato de Portugal é complicado jogar contra estas equipas, até mesmo na Taça de Portugal”, diz orgulhosamente. 

Ao serviço do emblema situado na cidade de Palmela, o promissor avançado estabeleceu uma amizade forte com Rodrigo Coelho, conhecido por todos como “Rodas”. Ligados pela incansável dedicação à modalidade, ambos revêem esta etapa como a plataforma necessária para projetarem as suas qualidades para um patamar mais elevado. Na perspetiva de Rodrigo, David foi dos seus melhores colegas com quem jogou, não tanto pelo seu talento, mas sim pela capacidade de manter a boa disposição apesar de, tal como muitos outros, encontrar-se centrado quase exclusivamente na realização do seu sonho.

 Calderón nunca escondeu que a família e os amigos foram a base do seu êxito como futebolista. E, tal como aconteceu em múltiplos casos, a pandemia veio afetar as relações do jogador com aqueles que lhe são mais próximos.

A vida de um futebolista sem as circunstâncias impostas pelo surto de Covid-19 já implica por si só inúmeros sacrifícios físicos e psicológicos. Determinado a ser o melhor em cada treino, David revela o desgosto de em diversas ocasiões nem sequer ver os pais ou os irmãos durante dias inteiros, estando impossibilitado de auxiliar nas tarefas domésticas.

Apesar de o Campeonato de Portugal ter persistido sem problemas graves, David não deixa de referir emocionado a frustração por também estar afastado dos amigos e da namorada, aproveitando ao mesmo tempo para criticar os adeptos que desconhecem ou ignoram o estado mental de quem investe o seu tempo a entretê-los. “Os jogadores não são robôs, não são máquinas. Todos temos sentimentos e acho que as pessoas devem ver mais isso e não só o lado futebolístico”, constata.

O caminho rumo ao topo

Perto de garantir a subida à 3ª Divisão do futebol português, o número 7 do Oriental Dragon não esconde o desejo de um dia representar um clube da 1ª Liga Portuguesa e experienciar a emoção de jogar em campeonatos de alto gabarito, como a Premier League ou a La Liga. 

Semelhante a João Félix na forma de jogar, David não descarta a hipótese de vir a estar no maior dos palcos do desporto-rei, a aclamada Liga dos Campeões. Um objetivo que, para Filipe e Rodrigo, está longe de ser impossível.  Num mundo em que o futebol simboliza a felicidade, os dois amigos do jovem atacante  o auge das suas carreira será no dia em que voltaram a jogar juntos pelo mesmo emblema.

Mesmo vendo o Campeonato de Portugal como uma prova em que os jovens são desvalorizados a favor da experiência, Rodrigo crê que com trabalho árduo chegará o momento em que estará ao lado de quem considera um irmão nos maiores estádios do país.

Já Filipe fantasia um futuro em que ambos jogam pelo clube do seu coração. “Independente de estarmos em ligas diferentes, acredito que um dia possamos voltar a pisar os mesmos relvados, de preferência no grande Sporting Clube de Portugal”, anseia o médio do Porto Salvo. 

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