Euro 2020 – A grande revelação da fase de grupos

Depois do descalabro que foi a ausência no Mundial de 2018, a Itália necessitava urgentemente de uma mudança radical. Sem lendas como Buffon e Pirlo, a  “Squadra Azzurra” enfrentava o que aparentava ser um processo longo de recuperação, uma imensa jornada  até recuperar o seu devido lugar na elite do futebol internacional.

Contudo, passados apenas três anos, a seleção italiana afirmou-se talvez como a equipa que melhor futebol apresentou ao longo do Euro 2020, terminando em primeiro do Grupo A com três vitórias, sete golos marcados e nenhum sofrido. Como é que uma seleção que parecia estar à beira de entrar na mediocridade encontra-se agora na posição de candidata surpresa à conquista do título?

Tudo começa, obviamente, no treinador. A má fase de qualificação para o Mundial e a consequente derrota contra a Suécia no playoff de acesso foram mais do que suficientes para os dirigentes da Federação Italiana de Futebol se aperceberem de que era preciso mudar por completo a filosofia de jogo italiana. Como tal, o nome escolhido para orientar os jogadores italianos de volta aos grandes palcos foi o de Roberto Mancini.

O técnico italiano foi uma opção ousada dos dirigentes italianos, mas não se pode dizer que foi uma decisão sem fundemento ou justificação aceitável. Mancini foi um antigo jogador da seleção, alguém com um vasto conhecimento do futebol italiano e habitudo à pressão de treinar uma equipa com aspirações elevadas. Afinal, foi este mesmo treinador que levou o Manchester City ao seu primeiro título da Premier League em mais de 60 anos, aproveitando o talento de estrelas como David Silva e Aguero.

Agora, Mancini teria pela frente o seu maior desafio até à data, restaurar o orgulho e a esperança na seleção de Itália depois da maior catástrofe futebolística do país.

O treinador de 56 anos reergueu os italianos das ruínas do passado para criar uma equipa com uma identidade clara e uma fornada de jogadores promissores que estarão ao serviço de Itália por muitos anos. Na qualificação para o europeu, os comandados de Mancini venceram todos os jogos do seu grupo, assegurando a liderança do mesmo com uma diferença de golos de +33. Para além disto, a última derrota da equipa italina remonta a setembro de 2018, frente a Portugal.

À entrada para o torneio, a Itália vinha de uma sequência inacreditável de 27 partidas sem perder, uma consistência que nem mesmo a maioria das grandes seleções europeias conseguiu replicar até hoje. Estamos perante uma nova geração de talentos, todos com 24 anos ou menos, tais como o meio-campista do Inter Nicolo Barella, a sensação entre os postes Gianluigi Donnarumma e o irreverente Federico Chiesa, da Juventus. Juntamente com veteranos como Chiellini e Bonucci, superestrelas do gabarito de Jorginho, Insigne e Immobille e outras grandes revelações como Locatelli e Bastoni, a Itália tem um grupo diversificado e capaz de se adaptar às diferentes situações do jogo.

Composto principalmente por jogadores que atuam na Série A de Itália, o técnico Roberto Mancini aproveitou ao máximo o que tinha à sua disposição, incluindo alguns jogadores extras de todo o continente. Uma aposta que se revelou acertada até ao momento.  

Apesar de não ter sido considerada a favorita para vencer o Campeonato Europeu de 2020, a Itália demonstrou uma grande capacidade de ultrapassar a defesa compacta de oponentes teoricamente menos talentosos, garantindo a qualificação para a próxima ronda ao mesmo tempo que também ensina a alguns dos favoritos uma lição sobre como dominar em tais jogos.

Um dos segredos por detrás dos resultados de sucesso da Itália é que eles construíram a sua confiança e montaram uma equipa sólida ao derrotarem oponentes que não eram considerados fortes por muitos adeptos e analistas, mas que eram certamente complicados, como alguns dos favoritos notaram na fase de grupos. Por exemplo, a poderosa Espanha, também com uma nova geração de grandes talentos, teve dificuldades em garantir a passagem à próxima fase devido aos empates contra Suécia e Polónia, equipas teoricamente inferiores aos espanhóis.

Enquanto que os “Gli Azzurri” mantiveram o recorde de 11 jogos consecutivos sem sofrer golos em todas as competições, a França, campeões do mundo em título, e a Alemanha por pouco conseguiram resgatar um ponto contra uma Hungria agressiva e que esteve perto de conseguir uma qualificação histórica no grupo da morte. Além do mais, equipas como os Países Baixos e a Bélgica venceram a Ucrânia e a Dinamarca respetivamente só depois de terem sofrido o jogo todo e graças exclusivamente ao talento individual dos seus atletas.

Esta é uma Itália que definitivamente não se deixa enganar pelas aparências e que aborda cada jogo com a exigência e o pragmatismo que lhe é exigida. Ao contrário do estilo mais defensivo e monótono do passado, os italianos preferem dominar a posse da bola, variando o ritmo de jogo mais paciente com jogadas mais rápidas que apostam na criatividade dos seus médios e na velocidade dos seus extremos. A melhor defesa é o ataque e ao exercer pressão nas zonas mais adiantadas do campo, a seleção italiana impede que os adversários tenham a possibilidade de sair a jogar desde a sua defesa.

Portanto, todos os supostos favoritos deviam seguir o exemplo italiano. “La Nazionale” pode não ser a mais forte em termos de destreza individual, mas tem o melhor coletivo de todos os participantes no Euro 2020.  A Itália encontrou consistência e confiança por meio de vitórias contra os denominados underdogs, algo que os restantes muitas vezes não conseguem fazer.

Fonte da imagem: Itália Twitter/@azzurri