O navio turco perdido no Oceano Europeu

Finalizada a fase de grupos do Euro 2020, é  já justificável apontar as grandes surpresas e desilusões desta competição que tanto nos está a surpreender. Neste artigo iremos analisar a caminhada de uma das desilusões do Euro: a Turquia.

Equipa

Após ter conquistado um segundo lugar na qualificação para o Euro, ficando só atrás da França, a Turquia estava decidida a surpreender tudo e todos à entrada para o Europeu.

Demiral, Çalhanoglu, Yilmaz e Söyüncü são os destaques da lista da Turquia para a Euro
Fonte da imagem: BeSoccer

Analisando a convocatória turca, é percetível a predominância jovem – Çelik (24 anos), Soyuncu (25 anos), Under (23 anos), por exemplo – que contrasta com a escassez de veteranos: Burak Yilmaz (35 anos) e Mert Gunok (32 anos) são os únicos jogadores com mais de 30 anos no plantel mais jovem do Euro 2020.

A seleção comandada por Senol Gunes destacou-se na fase de qualificação tanto pelo seu espírito aguerrido, como também pela quase exímia qualidade defensiva, ao acabar com apenas três golos sofridos. Em contraste, ‘As Estrelas Crescentes’, na fase de grupos do atual Euro, acabou em último lugar do Grupo A com três derrotas em três jogos frente à Itália, País de Gales e Suíça, contabilizando um total de oito golos sofridos e apenas um marcado. É importante frisar que uma das principais referências ofensivas da seleção turca, Cenk Tosun, ficou de fora da convocatória devido a uma lesão no joelho direito. O atual avançado do Besiktas foi uma das peças fundamentais da Turquia na caminhada até ao Euro 2020, ao apontar cinco golos na fase de qualificação (melhor marcador da seleção).

Tendo em conta os dados apresentados sobre a convocatória turca, olhemos agora para o desempenho no Euro 2020, analisando os jogos.

Euro 2020

Turquia vs Itália:

A jornada turca na competição não podia ter começado da pior maneira: uma pesada derrota por 0-3 contra uma “super” Itália mostrava os primeiros sinais de desmoronamento da Turquia.

Fonte da imagem: totalfootballanalysis

Para o jogo, Senol Gunes decidiu apostar num 4-1-4-1 que, já por si, indica uma abordagem mais cautelosa. E assim foi. A Turquia passou o jogo com um bloco defensivo baixo, à espera de oportunidades para explorar os contra-ataques. Quando podia sair a jogar, mostrou-se incapaz de efetuar boas saídas de pressão, apesar da qualidade técnica dos jogadores presentes no onze. A principal referência atacante, Yilmaz, encontrava-se constantemente isolado e sem apoios, restando-lhe apenas observar a inquietante passividade defensiva da seleção turca. Para piorar a situação, também os erros individuais (de Demiral, com um auto-golo, e de Cakir, no terceiro golo) ditaram o resultado final em 0-3 para a Itália.

Turquia vs País de Gales:

Após a amarga derrota contra a Itália, Senol Gunes efetuou duas alterações em relação ao onze anterior, mantendo a mesma formação de 4-1-4-1: saídas de Demiral e Yazici para as entradas de Ayhan e Under, respetivamente.

Fonte da imagem: site oficial do Euro 2020

Apesar das alterações, o plano de jogo da Turquia não sofreu quaisquer modificações, mesmo contra um adversário teoricamente mais fraco do que a Itália. Focados em conseguir criar perigo através de transições e bolas paradas, a turma turca, mais uma vez, mostrou-se incapaz de criar mossas significantes na baliza do País de Gales. Em adição, o estado psicológico dos jogadores, que por serem a maioria jovens têm uma maior suscetibilidade a serem atingidos psicologicamente, condicionou muito as ações ofensivas e defensivas da seleção turca, assim como a sua intensidade no jogo. A dada altura na partida, a Turquia tinha apenas um homem a pressionar o jogo do País de Gales (Yilmaz).

Além da derrota por 0-2, o jogo ficou consumado pela certeza de que a Turquia já não tinha quaisquer possibilidades de passar para os oitavos-de-final, dado as fracas exibições que até aí protagonizara.

Suíça vs Turquia:

Ainda com a pequena esperança de conseguir passar para os ‘oitavos’ entre os melhores terceiros, a Turquia atacou este jogo como os outros: de maneira cautelosa e sem atitude.

Fonte da imagem: FlashScore

Mais uma vez, a seleção turca apostou muito nas transições. No entanto, por não ter médios efetivamente capazes de conduzir a bola nessas transições, a Turquia decidiu apostar mais na exploração dos flancos, nomeadamente o de Celik, que, por ser a única figura que mais perigo apresentava, foi rapidamente limitado pelos suíços, e assim as oportunidades de perigo por parte da Turquia também.

Resultado final? 3-1 para a Suíça e uma onda de descontentamento e de cânticos contra a seleção turca, que, com o que tinha, era obrigada a fazer mais. Muito mais.

 

Fonte da imagem de destaque: Daily Sabah