Notas sobre o Europeu

Aproveitamos este momento de pausa para tecer algumas considerações sobre o torneio.

 

Formato. Quando foi anunciado que a partir do Euro 2016 a fase final do europeu teria 24 seleções, em vez das 16 habituais, criou-se uma onda de criticismo. Esse alargamento favoreceria federações menos competitivas (mas em maior número na UEFA), tendo a possibilidade das suas seleções marcarem presença no certame; ao mesmo tempo, as melhores seleções não teriam que se esforçar muito na qualificação, uma vez que, com mais 8 vagas, esta fase seria uma mera formalidade.

No entanto, contabilizando o último europeu e o atual podemos, num prisma estatístico e futebolístico, afirmar que tal criticismo não se comprovou. Desde logo porque, em 2016, seleções como a dos Países Baixos e a da Grécia, cabeças de série na qualificação, nem atingiram os play-off (a derradeira oportunidade de qualificar), ao mesmo tempo que outras seleções de prestígio (a antiga campeã Dinamarca ou as mundialistas Bósnia Herzegovina, Islândia e Sérvia) também falharam a sua presença (ou no euro realizado em França, ou no atual).

Estes resultados fazem a ideia de maior facilitismo/comodismo por parte das seleções mais fortes cair por terra. Depois, seleções apelidadas de fracas, de rudimentares – e que, portanto, não deveriam estar presentes numa fase final – como a Albânia, o País de Gales, a Hungria, a Islândia ou a Irlanda do Norte (em 2016), ou como a Finlândia, a Escócia ou a Macedónia do Norte (no Euro 2020), na realidade, foram competitivas e, em muitos casos, superaram as próprias expetativas – sobretudo se compararmos o desempenho de muitas destas com o de outras seleções sem esse rótulo negativo, e habituadas a estas provas, como a Turquia ou a Rússia, por exemplo.

 

Qualificação. Um europeu a 24 equipas acaba por dar outra vitalidade à competição – e isso demonstra-se não só na fase final, mas também na qualificação. Para além de toda a uniformização da Qualificação Europeia (mesmos grafismos, padronização de horários e da calendarização, em que todas as 55 federações são tratadas de igual modo), o aumento de 16 para 24 vagas finais dotou este processo de maior dinamismo, incerteza e, até, surpresa.

Desde logo, a forma de encarar a qualificação mudou. Antigamente, com grupos de 5 ou 6 seleções, e com apenas uma vaga direta para o europeu, esse apuramento direto estava fechado a meio das rondas de qualificação. Essa realidade fazia com que a maioria das seleções, a meio do percurso, se resignasse, sabendo que não teriam hipóteses de apuramento. Agora, a possibilidade de evolução na prova aumentou, visto que primeiros e segundos se apuram, e até os terceiros dos grupos de qualificação (2016) ou as seleções melhor colocadas da Nations League (2020) têm essa hipótese. Isto é, mesmo seleções menos cotadas têm o direito a sonhar, o que, quanto a mim, será sempre positivo.

Depois, convém refletir no seguinte: o País de Gales foi uma das surpresas de 2016, atingindo as meias-finais, mas só se qualificou porque houve alargamento; a Islândia foi outra das revelações em França, chegando aos quartos-de-final, todavia também esteve presente devido ao alargamento; seleções como a Hungria ou a Irlanda do Norte, afastadas destas lides internacionais há muitas décadas, passaram a fase de grupos (revestindo a sua participação de sucesso, portanto), porém só foi possível graças ao alargamento; este ano, a Áustria passou a primeira fase, tendo apenas sucumbido no prolongamento frente à Itália; no entanto, sem aumento de vagas na fase final, os austríacos não estariam presentes. Ou seja, se pensarmos nestes e noutros exemplos de sucesso nos europeus de 2016 e de 2020 (e ainda estamos nos quartos-de-final), um dos ideais de ter mais seleções na fase final cumpriu-se – mais surpresas, mais seleções diferentes a competir.

 

Oportunidade. Linhas acima escrevi “exemplos de sucesso”, para destacar o desempenho de algumas seleções. Porque ter sucesso não é apenas ser campeão, ou lutar por isso. Sucesso é atingir os objetivos pretendidos ou superá-los. Friso esta ideia pois muitas vezes parece diluída nas conversas que presenciamos e participamos.

Felizmente Portugal é, hoje em dia, uma potência a nível futebolístico. Como tal, para além de estar sistematicamente presente nestes torneios, entra neles para ganhar. Agora é assim, mas nem sempre foi. E tomara algumas gerações de futebolistas portugueses, de qualidade inegável, terem tido a possibilidade de participar nestas provas nas décadas de 60, 70 ou 80 (excluindo as exceções 66, 84 e 86). Dir-me-ão alguns: Se fossem bons tinham-se apurado! A questão não é tão linear. Há um hiato competitivo e até psicológico, entre a qualificação e a fase final. Uma espécie de bloqueio, independentemente da qualidade das seleções. E claro, Portugal podia ser muito competente, mas num grupo com a Itália, ou a Alemanha, ou a França, a nossa seleção e as restantes pareciam precocemente afastadas do apuramento (quando apenas um se apurava). E esta questão torna-se, de facto, objetiva, quando, a partir de 1996, em que passam a ser 16 os finalistas (e não os anteriores 8), a nossa seleção, com mais vagas, nunca mais falhou uma presença. Isso permitiu a consolidação de um projeto que culminou na conquista do título, em 2016 – após dois quartos-de-final, várias meias-finais e um final perdida.

Este exemplo português apenas pretende demonstrar que nós já fomos a Albânia de 2016 ou a Escócia de 2020/21 – ou seja, nós já fomos uma seleção que apenas queria uma oportunidade para estar presente e mostrar o seu valor. E esse momento ser o trampolim para a sua própria evolução.

Numa competição deste tipo, desta magnitude, em que são seleções que representam países ou territórios emancipados, a dimensão cultural, social e histórica das suas presenças ganha outra relevância. E o simples facto de apenas estar, per si, é um título.

Países como a Albânia, a Croácia, a Eslovénia, a Ucrânia, a Letónia ou a Macedónia do Norte, cuja própria história se revê em exemplos de superação, sacrifício e guerra, veem no europeu a oportunidade de uma vida para se darem a conhecer ao mundo, de forma saudável, positiva.

Por isso, sim, o alargamento do europeu tem uma função integradora, inclusiva, sendo uma oportunidade de apresentação a nível internacional, ou de evolução desportiva.

 

Liga das Nações. A nova prova da UEFA serviu para apurar as últimas 4 equipas para o Euro 2020. No entanto, numa análise fria, que vale o que vale, estas 4 seleções – Eslováquia, Hungria, Escócia e Macedónia do Norte – foram todas eliminadas na primeira fase. Deram respostas positivas, como já referido, mas até que ponto utilizar uma prova de hierarquização, com subidas e descidas, como fase de qualificação para outra prova, que tem ela própria um sistema de qualificação associado, resultará?

Se o modelo de qualificação adotado fosse o de 2016, teríamos seleções como a norueguesa ou a kosovar a competir diretamente por um lugar na prova – ficaram em terceiro dos seus grupos, com uma pontuação muito elevada, por exemplo.

Ou seja, após 8 ou 10 jogos de classificação, a justiça desta parece mais robusta, mais fidedigna, do que dois jogos, a uma mão, num timing totalmente descontextualizado do resto da qualificação.

 

Competitividade. É sobretudo pelo que temos assistido, que considero o Euro uma prova muito mais competitiva do que o Mundial. Tem, em média, um conjunto de seleções mais fortes, mais complicadas de bater, do que aquelas encontradas no certame da FIFA. Este valor médio que destaco é isso mesmo, uma média – entre seleções do Brasil, do Uruguai, ou da Argentina, e seleções do Panamá, das Honduras, ou da Arábia Saudita. Na Europa claro que temos seleções fortíssimas, mas seleções como a Suíça, a Croácia, a Áustria ou a Hungria conseguem competir e, como assistimos, proporcionar surpresas. Noutros continentes, infelizmente, isso não existe.

Esta competitividade, esta intensidade, esta qualidade, deve-se a uma realidade cada vez mais comum: a esmagadora maioria dos jogadores presentes no europeu joga numa das ligas apelidadas de Big Five ou, dos que não jogam, têm experiência em Champions League e Europa League – 151 na Premier League/Championship, 92 na Bundesliga, 69 na Série A, 46 na La Liga e 30 na Ligue 1; excluindo estes, temos 91 na Liga dos Campeões e 61 na Liga Europa.

Estes números são reveladores de duas coisas. Primeiro, a maioria dos jogadores internacionais está num contexto competitivo que lhes permite evoluir, no qual são colocados à prova permanentemente; segundo, mesmo seleções teoricamente inferiores (eventualmente, a Hungria, a Escócia, a Finlândia ou a Macedónia do Norte) têm vários jogadores emigrados – dotando-lhes de qualidade suficiente para competir com os demais.

Analisando um dos jogos mais empolgantes dos oitavos-de-final, constatamos que o França x Suíça, que resultou na eliminação dos campeões do Mundo, foi um jogo entre uma seleção francesa composta por jogadores dos melhores clubes dos melhores campeonatos da Europa, frente a um adversário cuja seleção era constituída pelo melhor que existe na Bundesliga, juntando mais jogadores de equipas como Arsenal e Liverpool. Sem dúvida que a preparação que os jogadores suíços têm nos clubes e nas competições que frequentam confere-lhes rodagem suficiente para competir com os gauleses.

 

Imprevisibilidade. Tivemos, até ao momento, 10 campeões europeus diferentes: União Soviética, Espanha (3x), Itália, França (2x), Alemanha (3x), Checoslováquia, Países Baixos, Dinamarca, Grécia e Portugal. Em nenhum outro certame desta magnitude temos uma diversidade tão grande (e tão diferente entre si) de vencedores.

Olhando para os quartos-de final e o emparelhamento até à final de Wembley, seleções como a Bélgica e a Inglaterra têm uma possibilidade muito grande de se juntar à lista de campeões. Ainda temos italianos e espanhóis em prova (com mérito) mas, e excluindo as duas seleções acima referidas, a equipa que mais me atraiu foi a Dinamarca. Um perfume do final dos anos 80/início dos anos 90 que ressurgiu – mistura de talento e intensidade que pode resultar.

 

Fonte da imagem: Público