Rescaldo da participação portuguesa no EURO 2020

Portugal foi eliminado pela Bélgica nos oitavos de final do Euro 2020. Quase uma semana depois do fatídico jogo de Sevilha, e já com todos a pensar nas meias-finais de Wembley, é tempo de olhar para trás e identificar erros, dificuldades e (os poucos) proveitos da seleção portuguesa.

Primeiramente, é necessário diferenciar a equipa de 2016 que venceu o Europeu da equipa de 2021. Embora o treinador e os jogadores as colocassem no mesmo patamar em termos de qualidade individual, esta era claramente superior em 2021.

No entanto, se a qualidade individual aumentou e se as características dos jogadores convocados se diversificaram, permitindo assim um leque maior de abordagens diferentes possíveis de adotar, a maneira de Portugal jogar continuou semelhante. Continuou a ser uma equipa pragmática, a privilegiar o trabalho sem bola à construção e a procurar as saídas rápidas para o ataque. Porém, a qualidade com que executou este plano de jogo menos cativante, mas também (teoricamente) menos propenso a erros já não foi semelhante. É assim importante não só questionar o modelo utilizado, como também a eficácia deste.

Fonte da imagem: Twitter @selecaoportugal

Pragmatismo ao invés de controlo

Todos os modelos de jogo são válidos se funcionarem é um dos princípios do futebol. Jogar melhor que o adversário torna a vitória mais provável é outro.

No entanto, nos últimos anos fruto da conquista do Europeu e da Liga das Nações assistiu-se a uma constante valorização e romantização do pragmatismo, muitas vezes mal-executado. Do nada jogar bem, controlar as partidas e ter a bola foram renegados para segundo plano e esquecidos, quer em Portugal como no estrangeiro. Este Europeu já mostrou o mesmo, com a constante perseguição à seleção espanhola por fazer muitos passes e ter empatado os dois primeiros jogos. Não foram sem dúvida os melhores jogos da Espanha, mas será que se tivesse tido 30% da posse de bola e se baseasse o seu jogo em correr atrás da bola e no jogo direto teria tido o mesmo escrutínio por parte dos críticos? Ao mesmo tempo em que a Espanha era criticada, a seleção italiana era enaltecida. Seleção italiana esta que, apesar de forma bastante diferente, também privilegia o controlo da bola e faz o seu jogo girar em torno desta. A incoerência no debate futebolístico em tornos de uma análise exclusivamente resultadista aumentou e tem contribuído para o desvalorizar daquilo que é realmente importante: o jogo e o que se faz dentro das quatro linhas.

No caso português a análise resultadista é ainda mais curiosa, porque se prende no passado. Se resultou em 2016, então resultará nos anos seguintes. E, se não resultar só nos resta aceitar porque resultou em 2016 e temos de valorizar tal conquista. Há várias incoerências nesta frase, mas duas são de especial destaque: primeiramente, as conquistas passadas não devem desculpar erros presentes e o agradecimento não é equivalente à veneração; em segundo lugar o futebol a nível internacional não é estático e desenvolve-se. Tal desenvolvimento, traduzido em diferentes formas de abordar a partida, em diferentes estilos e em diferentes sistemas táticos aumentou a competitividade e os desafios a quem quer ganhar.

Tome-se como exemplo uma defesa com três centrais. Anteriormente classificada como defensiva, só quem vive preso a esse rótulo é que nos dias de hoje ainda a associa a um futebol defensivo. Muitos dos clubes utilizam três centrais (Chelsea e Inter de Milão, por exemplo) e outros utilizam apenas dois (numa linha de quatro defesas), mas deixam um lateral ou um médio mais recuado no terreno no momento da construção, num modelo assimétrico, mas que várias vezes permite gerar vantagens e ultrapassar a primeira linha adversária. Olhar para o futebol como um desporto imutável quando este está cada vez mais competitivo é olhar de forma enviesada para o jogo o que não beneficia o seu entendimento.

É assim complicado entender os argumentos que exaltam a manutenção do pragmatismo por parte de Fernando Santos. Especialmente tendo em conta os novos talentos que este tem à disposição e não tinha anteriormente. Jogadores como Bruno Fernandes ou Bernardo Silva estão já no patamar dos melhores do mundo, mas na seleção continuam sem render o que rendem nos clubes. Tal dicotomia é facilmente explicada pelo papel desempenhado dentro de campo. Bernardo Silva joga no Manchester City de Guardiola e independentemente das várias posições e funções que já desempenhou, uma característica foi constante: teve sempre a bola. Já Bruno Fernandes teve sucesso imediato no Manchester United porque lhe foi dada liberdade posicional para ocupar uma vasta área no campo para decidir o que fazer à bola. A tarefa de ligação entre o meio-campo e o ataque assenta nas características do médio e ter a bola neste espaço é sinónimo de protagonismo para Bruno Fernandes. No entanto, quando atuam pela seleção a rigidez posicional aliada ao privilégio do trabalho sem bola fazem com que dois dos melhores do mundo pareçam apenas mais dois jogadores a quem ocasionalmente é possível vislumbrar rasgos de qualidade.

Outros jogadores como Raphael Guerreiro ou João Moutinho apresentam também características compatíveis com o controlo da bola em posse. É assim relevante colocar o controlo do jogo como uma possibilidade a adotar pela seleção nacional. Porque a qualidade individual está lá, porque esta pode ser exponenciada pelo coletivo e porque Portugal defrontará equipas inferiores na maioria dos jogos, muitas destas que por natureza entregarão a iniciativa a Portugal.

Fernando Santos manteve-se ainda assim fiel ao modelo que outrora garantira resultados. Porém, foram várias as dificuldades nas quatro partidas realizadas.

Fonte da imagem: Twitter @selecaoportugal

Hungria 0 – 3 Portugal

O resultado mostra uma aparente tranquilidade, mas o jogo contra a Hungria de tranquilo teve pouco. Portugal entrava para a partida a saber que teria um jogo com características diferentes dos restantes que disputaria no torneio uma vez que enfrentando uma equipa que defendia num misto de bloco baixo e de pressão agressiva, Portugal teve naturalmente de assumir a iniciativa.

O ADN português é, no entanto, mais baseado no aproveitamento das transições. Obrigado a construir desde trás e a encontrar espaço no bloco húngaro, a equipa das quinas teve bastantes dificuldades.

Apresentando uma posse de bola incapaz de gerar progressão e de infiltrar a defensiva húngara, Portugal apesentou bastantes dificuldades. O duplo pivô português oferecia estabilidade e reduziu as hipóteses de Portugal sofrer golos em transição, mas mostrou bastantes dificuldades em encontrar passes de rutura e em acelerar a circulação de bola. Só nos últimos minutos é que Portugal conseguiu chegar ao golo. Rafa foi importante e contabilizou duas assistências, mas as entradas de Renato Sanches e de André Silva foram as decisivas para modificar o resultado.

A entrada de Rafa parecia algo precipitada uma vez que as dificuldades portuguesas se prendiam com a procura pelo espaço e não com o aproveitamento deste. A presença de Renato e de André Silva em campo foram assim fundamentais para criar este espaço. Renato Sanches, pela imprevisibilidade com bola e pela capacidade de progredir em posse permitiu arrastar marcações e libertar espaços. Já André Silva apresentou-se como uma referência capaz de fixar os centrais e libertar Bruno Fernandes. Isto porque Cristiano Ronaldo que era o jogador português mais adiantado deslocava-se na frente do ataque, geralmente descaindo para a esquerda. Assim, era Bruno Fernandes quem ficava com a liberdade de movimentos restringida, vendo-se obrigado a jogar entre os centrais de costas para o jogo, característica que não o favorece.

O primeiro golo português é o exemplo da ação dos jogadores que entraram e que demostra que Portugal tem capacidade para criar espaço com a bola nos pés.

Fonte da imagem: Youtube SPORT TV

Como se pode ver na imagem, Bruno Fernandes com liberdade para se deslocar tem a capacidade para se virar de frente para a partida e de assumir a responsabilidade da construção. Neste contexto, e após a movimentação de Renato (visível na imagem) que arrastou o defensor, gerou-se espaço. Bruno viu a desmarcação de Rafa, fez o grande passe e depois, com o espaço já criado, a definição da jogada tornou-se evidente.

O terceiro golo deste jogo é também a prova de que Portugal tem capacidade para guardar a bola e para criar espaço. Os 33 passes consecutivos, mesmo que tenham aparecido numa etapa em que a Hungria se encontrava afetada pelos dois golos sofridos de rajada, mostram a qualidade que Portugal tem e que por vezes é camuflada pelo pragmatismo.

Portugal 2 – 4 Alemanha

O duelo contra a Alemanha apresentou novos desafios a Portugal. Jogando num 3-4-2-1 com bastantes semelhanças no posicionamento com o Chelsea de Tuchel, a saída de bola alemã começava nos três centrais. A construção fazia-se preferencialmente pela direita, onde Ginter subia no terreno, Kimmich por característica temporizava o jogo e por onde se encontravam tendencialmente os médios alemães. Aproveitando a mobilidade do tridente ofensivo que aproveitava o espaço entre linhas e fazendo uso da mudança de flanco e das rápidas variações para a esquerda (característica bastante utilizada na Atalanta), Gosens entrava quase sempre na área sem marcação. Foi desta forma que a Alemanha chegou com perigo e que resolveu a partida.

Fonte da imagem: Youtube SPORT TV

O terceiro golo alemão acima representado é o exemplo perfeito do cenário acima descrito. Nélson Semedo foi por muitos responsabilizado e funcionou como bode expiatório da má exibição portuguesa. No entanto, e ainda que a exibição do lateral direito português tenha estado longe da perfeição, os problemas portugueses foram muito mais coletivos que individuais. Fruto da presença de cinco jogadores na linha mais ofensiva alemã (Gosens, Gnabry, Havertz, Muller e Kimich), a linha defensiva nacional estava sempre em inferioridade numérica e Gosens encontrou por várias vezes espaço livre. No exemplo apresentado, a movimentação de Nélson Semedo é a correta, cobrindo a hipótese de passe para Gnabry que ocupava a zona central. No entanto, faltava outro jogador que ocupasse o corredor direito português.

O problema da equipa nacional era facilmente identificado, mas não foi resolvido por Fernando Santos. Assumir uma defesa com três centrais, fazer baixar Danilo no momento defensivo, deixar o corredor entregue a um extremo ou variar esse extremo consoante o lado por onde a bola circulava eram as várias alternativas possíveis, mas nenhuma foi tomada e Portugal sofreu vezes sem conta do mesmo erro.

O único lance de golo que, embora também fazendo uso do espaço livre deixado a Gosens, teve uma construção diferente foi o segundo, visível na fotografia abaixo.

Fonte da imagem: Youtube SPORT TV

Na figura é evidente a superioridade numérica alemã nos terrenos mais avançados. No entanto, a construção deu-se pela esquerda e pelo central. A seleção portuguesa deu liberdade a Rudiger para progredir no terreno e para ver o jogo de frente e decidir onde colocar a bola. A bola foi colocada na esquerda onde Gosens já se desmarcava e a ausência de pressão ao portador da bola foi determinante para o golo. Portugal não costuma pressionar alto no terreno, focando-se na fiabilidade na ocupação dos espaços defensivos. No entanto, quando estes não são bem ocupados, ter jogadores com capacidade de jogar de frente para o jogo e de jogar verticalmente soltos de marcação revela-se um problema.

Portugal 2 – 2 França

O jogo com a França era teoricamente o mais complicado, mas foi, porventura, o melhor jogo de Portugal. Moutinho e Renato entraram no lugar de Bruno Fernandes e de William, o duplo pivô foi desfeito definitivamente e Portugal assumiu um 4-1-4-1. A França, tal como Portugal, é uma equipa refém das individualidades e com um estilo de jogo algo desadequado à qualidade individual. Dando a iniciativa ao adversário e procurando a saída em transição beneficiada por lançadores como Pogba ou Griezmann e por jogadores capazes de aproveitar a profundidade como Mbappé e Benzema, a seleção francesa apresentou novamente um novo desafio. Enfrentando uma pressão menos intensa que a da Hungria e um bloco menos recuado, Portugal controlou a maioria do jogo com base na posse. Os golos resultaram de lances fortuitos, mas a capacidade de transportar a bola de Renato Sanches, o trabalho de gestão silenciosa de Moutinho e a maior envolvência de Bernardo Silva na construção criaram várias oportunidades de perigo. Novamente foi através da posse de bola e do controlo que Portugal esteve mais próximo da vitória.

Defensivamente, Portugal sofreu golo num dos poucos lances em que foi incapaz de controlar a profundidade e num lance que, embora possa ser discutível, advém de uma má abordagem de Nélson Semedo. No entanto, e embora não tenha sofrido golo nessas circunstâncias, o principal problema defensivo lusitano foi o controlo do espaço à entrada da área. O lance do remate de Pogba e da enorme defesa de Rui Patrício é o expoente de tal lacuna.

Fonte da imagem: Youtube SPORT TV

Como é visível na imagem, a transição defensiva portuguesa foi capaz de controlar a profundidade. No entanto, nove jogadores (para além do guarda-redes) acumularam-se dentro de área, dando liberdade a Pogba para ensaiar o remate. O frame da imagem ainda não contempla a pressão de Palhinha, habilmente superada pelo francês, mas evidenciou o problema que futuramente ditaria a eliminação.

Bélgica 1 – 0 Portugal

Portugal estudou bem o adversário que tinha pela frente. A Bélgica apresentava a Portugal problemas que a seleção das quinas já tinha vivenciado de perto: o ataque à profundidade gaulês e o sistema tático germânico (ainda que mais semelhante numericamente do que no plano dos comportamentos).

Porém, não foi de nenhuma destas formas que a Bélgica chegou ao golo, muito por culpa da abordagem defensiva adotada por Portugal. Ciente dos possíveis problemas relacionados com a inferioridade numérica no setor mais recuado, Bernardo e Jota recuavam (quer alternadamente, quer duplamente) para ocupar o corredor. Deste modo, algumas vezes foi visível uma linha de seis homens a defender. A eficácia a travar a profundidade dos alas belgas foi, no entanto, alcançada à custa das saídas de Portugal em transição, uma vez que reféns do trabalho sem bola, Bernardo e Jota viram a sua contribuição ofensiva descer a pique. E, o erro na ocupação dos espaços à entrada na área desta vez foi decisivo.

Fonte da imagem: Youtube SPORT TV

O lance do golo belga nasce de um drible surpreendente de Courtois que apesar de não ter o jogo de pés como forte foi fundamental no começo na construção. Na jogada Lukaku também fez uso da capacidade de receber de costas e de orientar o jogo e, na sequência de um ressalto a bola acabaria por chegar a Thorgan Hazard. O ala belga, como é visível na imagem, recebeu com espaço e tempo para pensar na melhor ação e executar o remate.

Em desvantagem, a segunda parte de Portugal foi orientada na busca pelo golo do empate. Muitas pessoas classificaram a segunda parte portuguesa como um exemplo de volume de jogo ofensivo ou como uma constante criação de oportunidades. Na realidade, a construção portuguesa foi completamente anárquica e baseada na fé de que uma bola entrasse ao invés de se basear numa construção criteriosa e no aproveitamento dos espaços deixados pela Bélgica.

Olhar para as estatísticas, para a quantidade de cruzamentos ou para os 24 remates realizados não caracteriza o jogo de Portugal. Baseado quase exclusivamente na dependência de jogadas individuais ou em cruzamentos sem qualquer critério, Portugal teve bola durante mais tempo, mas não soube o que fazer com esta na maioria deste. A entrada de João Félix deu capacidade para aproveitar o espaço entre linhas e critério à equipa nacional, mas foi apenas um oásis no meio de um deserto.

Sorte, azar e competência

Por fim é também importante abordar a questão da sorte. Portugal ficou num grupo complicado e o lado do sorteio para as fases a eliminar também foi o mais difícil. Não teve sorte ao contrário do ano da conquista, em que encontrou um grupo bastante acessível e evitou todos os tubarões até à final.

A definição dos lados do sorteio é baseada no puro acaso e em nada está relacionada com o mérito. Se Portugal ficasse em segundo lugar teria um caminho teoricamente mais facilitado, mas um eventual primeiro lugar no grupo também colocaria Portugal no lado dos tubarões. Ao contrário das ligas nacionais, os torneios curtos são sempre influenciados pelo sorteio. É assim impossível separar a sorte do caminho de cada seleção.

No entanto, no caso de Portugal não foi a falta de sorte que ditou a eliminação, mas sim a falta de competência. Porque, é possível ser competente sem ter sorte ou não ser competente e ter sorte. Mas no caso de Portugal nenhum cenário é verdadeiro pelas mais diversas razões

E a própria sorte pode e deve ser relativizada. É um dos vários fatores que tem influência, mas está longe de ser o fator determinante. Portugal em 2016 teve sorte, mas também foi competente. Nos quatro jogos a eliminar sofreu apenas um golo e foi sempre uma equipa perigosa em transição.

Em 2021 Portugal não teve sorte nos adversários tal como Itália e Espanha não tiveram. O que é certo é que uma destas equipas vai jogar a final de Wembley que, por culpa própria, a seleção portuguesa vai assistir a partir da televisão.

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