Jovem Promessa: Mikkel Damsgaard, a nova jóia dinamarquesa

Com o Euro 2020 ainda a decorrer, é pertinente falar de uma das revelações jovens do torneio, que tem sido uma das figura da seleção da Dinamarca, ainda em competição. Desconhecido de muita gente até há bem pouco tempo, o destro da Sampdoria promete agitar o mercado deste verão.

Mikkel Dasmgaard nasceu em Jyllinge, na Dinamarca, a 7 de julho de 2000 e começou a dar os primeiros passos no clube da sua terra natal, sendo treinado pelo seu próprio pai. Aos 13 anos foi para a academia do Nordsjaelland, onde começou a dar nas vistas num torneio na Suíça contra Benfica e Inter, saindo mesmo de campo debaixo de aplausos dos pais dos jogadores portugueses, dada a qualidade da sua exibição. Na formação, a sua posição predileta era a de número 10, já que a criatividade, inteligência e maturidade no posicionamento compensavam um desenvolvimento físico mais lento.

Uma grande época no seu segundo ano enquanto juvenil precipitou a sua integração nos trabalhos da equipa principal em 2017, estreando-se nesse setembro com apenas dezassete anos, numa partida a contar para a Taça da Dinamarca, onde jogou como médio ofensivo. O treinador que apostou nele? Kasper Hjulmand, que agora comanda a seleção do país mas na altura estava na sua segunda passagem pelo banco do Nordsjaelland, que durou 4 anos, dois dos quais em simultâneo com “Damsinho”. Esta alcunha foi dada pelo técnico ao seu pupilo, pela sua capacidade técnica acima da média, a fazer lembrar os jogadores brasileiros que têm uma maior preferência pela finta e pelo drible do que propriamente os nórdicos, mais conhecidos pela sua propensão física.

Hjulmand aproveitou a qualidade individual de Damsgaard e deu-lhe a batuta para comandar as ações ofensivas da equipa, funcionando como uma espécie de número 10 dos tempos modernos, progredindo com bola 30/40 metros para depois fazer passes de rotura ou mesmo finalizar à entrada da área, sendo a meia distância uma das suas mais-valias. Apesar de ter as características ideiais para jogar no meio, durante as três temporadas no clube, o sistema táctico, de Kasper Hjulmand de 2017 a 2019, e de Flemming Pedersen em 2019/2020, variava entre o 4x3x3 e o 3x4x3, sendo que neste último, o jovem jogava mais avançado a partir de uma ala. Nesta posição, observou-se outro ponto forte do jogador que é a grande capacidade de recuperação de bola na primeira fase de construção do adversário, isto é, colocando-o numa primeira linha de pressão defensiva, este tinha uma noção do espaço acima da média para, no momento certo,  roubar a bola e iniciar transições rápidas.

Esta polivalência é a principal razão para, na sua segunda época como sénior, o jovem jogador ter-se tornado um titular indiscutível no clube com 39 jogos efetuados e um golo marcado, depois de ter jogado apenas 18 na sua temporada de rookie. Já sem Hjulmand ao leme, a temporada 2019/2020 foi de afirmação para o dinamarquês que além de realizar 35 partidas, marcou 11 golos, números que suscitaram o interesse da Sampdoria, que avançou mesmo para a sua contratação no verão passado, a troco de 6 milhões e meio de euros.

Na sua primeira época em Itália, o médio surpreendeu pela sua rápida adaptação aos métodos da velha raposa Cláudio Ranieri e à fisicalidade do futebol transalpino, somando 1800 minutos, repartidos por 37 jogos, 17 dos quais a titular. Na Samp, o número 10 de nascença jogou quase sempre a partir da ala, num 4x4x1x1 com Valerio Verre a fazer a posição de médio mais ofensivo em vez do dinamarquês, que nesta última temporada evidenciou atributos menos observados na sua passagem pelo seu clube anterior. Por jogar a médio esquerdo, era-lhe exigido muito mais defensivamente, descendo várias vezes durante cada jogo para ajudar o lateral Augello, para depois recuperar a bola e iniciar transições rápidas, aproveitando a sua rapidez e técnica de rua para ultrapassar vários adversários e depois, já na área, assistir os seus colegas.

Assim sendo, Damsgaard cortava muito menos para o meio e consequentemente não rematava tanto de longe, optando, em vez disso, por fazer incursões rápidas pela ala, que muitas vezes resultavam em perdas de bola, devido à pressão adversária. A solução para essa “fraqueza” no seu jogo passou pela realização de tabelas para libertar a marcação ou dar espaço de manobra ao extremo para andar em zonas mais centrais, onde a sua visão de jogo e qualidade de passe podem desequilibrar o jogo a seu favor. Na próxima temporada é de esperar que o jogador dê mais um salto no seu desenvolvimento, seja na Sampdoria, utilizando a sua rapidez de pensamento para se posicionar mais vezes em zonas de finalização e aumentar o número de golos marcados em relação a esta última época (dois), seja noutro clube, dado o grande interesse que o jovem de 21 anos tem suscitado no futebol europeu.

Muito do entusiasmo que se gerou à volta do médio, deve-se ao grande campeonato da Europa que está a fazer, ele que nem começou como titular. A paragem cardíaca de Eriksen, o criativo da equipa, logo no primeiro jogo contra a Finlândia , obrigou o selecionador dinamarquês a montar um plano B, que assentou no génio do pequeno prodígio do nono classificado da Série A. Apesar de contar com apenas 3 jogos realizados pela seleção principal antes desta competição, Mikkel assumiu a titularidade com grande brilhantismo, jogando na linha de três da frente em 3x4x3, tal como no Nordsjaelland, desempenhando funções de falso nove no seu primeiro jogo contra a Bélgica, e mais descaído à esquerda nos três seguintes.

Contra a Rússia, viu-se uma grande liberdade posicional entre os três homens da frente que apareciam em qualquer zona do ataque, com o extremo a aproveitar o espaço para aparecer no meio e marcar um grande golo que iniciou a goleada por 4-1. Já na fase a eliminar, a opção por um ponta de lança mais fixo (Dolberg), colocou um travão no caos atacante, apesar de Damsgaard e Braithwaite aparecerem muitas vezes na área para apoiar o avançado no Nice, mas também para dar espaço aos alas, criando superioridade numérica, tanto nos corredores como nas opções para finalizar.

Mikkel Darmsgaard tem algo de especial, que não se ensina, um talento e técnica natos que fazem dele um dos últimos números 10 clássicos,  capazes de levantar estádios inteiros com a sua magia, cada vez mais em vias de extinção.

Fonte da imagem de capa: Getty Images/Jonathan Nackstrand