Encerramento do EURO 2020: os destaques e as tendências do torneio

O EURO 2020 chegou ao fim com a vitória da Itália. É assim tempo de olhar para trás e destacar os jogadores, os momentos e os sistemas táticos que colaram a Europa e o Mundo aos ecrãs.

Prolongamentos, autogolos e penáltis falhados

A qualidade dos jogos disputados fez o tempo passar rapidamente, mas este foi o Europeu com mais minutos de futebol jogado, fruto dos oito jogos a eliminar que terminaram com uma igualdade no fim dos noventa minutos. Quatro confrontos dois oitavos, um dos quartos, ambas as meias e a final foram decididas ou nos trinta minutos de prolongamento ou no desempate por grandes penalidades. Foi assim um europeu marcado por uma tendência que deverá ser também dominante nas competições europeias por clubes já a partir desta temporada, com o fim da regra dos golos fora que, inevitavelmente, aumentará os jogos decididos no prolongamento.

Foi também o Europeu dos autogolos. O primeiro golo de todo o torneio foi marcado por Demiral logo no jogo de abertura, mas nada fazia adivinhar a escalada de golos marcados na própria baliza. Hummels, Rúben Dias, Raphael Guerreiro, Hradecky, Szczesny, Dubravka, Kucka, Pedri, Zakaria e Kjaer também marcaram na própria baliza, perfazendo um recorde absoluto de 12 autogolos marcados no mesmo torneio, que excedeu mesmo a quantidade de autogolos marcados em todos os restantes europeus juntos: nove. Entre os 12 houve espaço para o primeiro autogolo de um guarda-redes na história dos Europeus – Szczesny na derrota da Polónia contra a Eslováquia; para a primeira seleção europeia a marcar dois autogolos no mesmo jogo numa grande competição – os autogolos de Rúben Dias e de Raphael Guerreiro na pesada derrota contra a Alemanha; e para autogolos caricatos e inacreditáveis como os de Dubravka e de Pedri.

O desempate por grandes penalidades na final do Europeu foi decisivo para a coroação do campeão e ficou marcado pelos penáltis falhados. Esta foi também uma tendência de todo o torneio, que foi também aquele no qual mais grandes penalidades foram assinaladas (muito por culpa da intervenção do VAR, que foi também uma novidade no EURO 2020). Tomando como exemplo única e exclusivamente a fase de grupos, foram assinalados 14 penáltis, sendo que seis destes foram desperdiçados. Ainda em relação a grandes penalidades, o Portugal-França foi o primeiro jogo de um Campeonato da Europa no qual três grandes penalidades foram assinaladas e Ronaldo nesse jogo tornou-se o primeiro jogador a marcar dois golos de grande penalidade no mesmo jogo no Europeu.

Fonte da imagem: Tek Deeps

As estruturas coletivas no combate à dependência das individualidades

Uma das particularidades deste certame desportivo foi também a recompensa dada a quem apresentou melhor rendimento dentro de campo. As quatro semifinalistas foram a Espanha, equipa que apresentou o melhor ataque posicional do torneio, a Itália que foi quem globalmente e ao longo do torneio se afigurou como a seleção mais completa em todos os momentos do jogo, a Dinamarca que ao leme de Hjulmand se soube adaptar às contrariedades sofridas ao longo dos torneios e a mudar de estratégia consoante o contexto enfrentado na partida e a Inglaterra que aliou a solidez defensiva à capacidade de se adaptar ao adversário em específico que enfrentava.

Foi também um Europeu em que foi interessante ver de que maneira é que equipas com menor qualidade individual fizeram da abordagem tática e coletiva a arma para derrotarem equipas que, embora a nível individual mais apetrechadas, não foram capazes de convencer dentro de campo.

Assim, analisar a forma como a Suíça bateu a França é para olhar para os diversos mecanismos táticos definidos por Petkovic. Ricardo Rodriguez atuou como central pela esquerda (num sistema de três centrais) e, no momento ofensivo projetava-se por dentro, provocando várias dificuldades a Pavard que além de Zuber, passou a ter outro jogador com quem tem de lidar. Também neste jogo foi evidente a importância do papel de Xhaka (que fez uma das exibições deste torneio) no momento de saída de bola. Olhar para a República Checa é olhar para uma forma de jogar muito semelhante à do Sparta de Praga, maior fornecedor de jogadores à equipa checa. Baseando a estrutura defensiva numa marcação individual que, embora os riscos e lacunas, foi quase sempre bem executada e criou problemas aos adversários, nomeadamente os Países Baixos. Ver a forma como Hjulmand se adaptou à ausência de Eriksen, abdicou de um falso nove como Jonas Wind, implantou um sistema tendencialmente com três centrais e fez brilhar a equipa dinamarquesa é ao mesmo tempo analisar uma das surpresas do torneio e que era por muitos descartada após as duas primeiras jornadas (onde embora tenha saído por duas vezes derrotada, já tinha deixado sinais bastante positivos). Independentemente das abordagens ofensivas e defensivas e por muito diferentes que tenha sido a forma de jogar de cada uma destas seleções, um denominador foi comum: mantiveram a identidade e criaram rotinas coletivas que fizeram brilhar as individualidades.

Fonte da imagem: Maisfutebol

Pelo contrário, seleções como a França, dependente dos lançamentos de Pogba e de Griezmann para o aproveitamento da profundidade por parte de Mbappé e Benzema, como a Croácia onde apenas Modric fazia funcionar o ataque ou como Portugal, sempre incapaz de apresentar fluidez e critério no momento ofensivo (bem como competência no momento defensivo), revelaram-se autênticas desilusões na medida em que, com a qualidade individual que tinham disponível, poderiam ter apresentado um futebol muito mais interessante.

O Europeu dos médios

O meio-campo é muitas vezes a chave do funcionamento das equipas, por ser a zona do terreno na qual a maior parte do jogo está concentrado. Neste Europeu, foi evidente a importância desta zona do campo. É assim relevante fazer uma viagem pelos jogadores e pela maneira como os meio-campistas influenciaram a prestação da equipa na qual estiveram envolvidos.

Começando pela seleção italiana, Jorginho foi o termómetro da distribuição e da saída de bola, orientando a construção da Azzurra. Verratti entrou na equipa titular no último jogo da fase de grupos (após uma lesão o ter afastado dos dois primeiros jogos), e mostrou mais uma vez o porquê de ser o melhor do mundo. O médio italiano rendeu Locatelli, que fez também uma fase de grupos de enorme qualidade, e foi um dos fatores que explica a construção preferencial da seleção italiana pela esquerda. Já Barella esteve também em destaque, não tanto na construção de jogo mas sim na definição, afirmando-se como uma arma na chegada à área.

Fonte da imagem: NSC Total

Southgate como já abordado anteriormente apostou na solidez defensiva, abdicando muitas vezes da capacidade desequilibradora e criativa de jogadores como Foden, Mount ou Grealish. Neste contexto, o duplo pivô foi um dos destaques da seleção inglesa. Declan Rice, mais refinado tecnicamente foi fundamental na saída de bola inglesa, garantindo critério nas jogadas na qual Inglaterra tentava trabalhar o jogo e não resumia o futebol ofensivo na procura da capacidade de aceleração de Sterling. Já Kalvin Phillips, que tem beneficiado claramente de ter um tutor como Bielsa, revelou-se fundamental não só nos períodos de pressão alta de Inglaterra (geralmente no começo das partidas), como no aproveitamento do espaço entre linhas e na projeção para o ataque (o maior exemplo desta função de Phillips é o golo inglês contra a Croácia).

Espanha teve em Pedri e em Busquets dois dos nomes do torneio. Pedri é já com 18 anos um dos grandes médios do futebol mundial e poderá a vir a ser um talento geracional. Após uma temporada de revelação, o médio chegou ao Europeu, assumiu desde o início a titularidade e não desiludiu. É um jogador cuja influência não se traduz em estatísticas e demonstrou durante as partidas uma capacidade de interpretação e leitura dos espaços (para se posicionar e onde colocar a bola) fora do comum. Já Busquests, após a ausência por covid dos dois primeiros jogos, foi importantíssimo para a equipa espanhola acentuar ainda mais o domínio nas partidas.

A Dinamarca, privada da criatividade e magia de Eriksen teve em Hojbjerg e Delaney uma dupla muito interessante no meio-campo. Hojbjerg é um jogador refinado tecnicamente e com capacidade para ditar o ritmo de jogo, tendo por isso um comportamento específico durante as partidas: aproximar-se dos três centrais e movimentar-se à frente e entre estes consoante o lado em que a bola circulava. Já Delaney desempenhou um papel onde conseguiu conjugar a intensidade sem bola com a aproximação a zonas mais adiantadas.

Fonte da imagem: REUTERS/Jonathan Nackstrand

De entre as equipas que se ficaram pelos quartos há também jogadores que, atuando no meio-campo, foram fundamentais nas respetivas seleções. Na seleção ucraniana, Zinchenko (ocupando como de costume uma posição diferente da que ocupa no Manchester City) foi fundamental a construir por dentro, mas também por fora em certas ocasiões. Ainda na Ucrânia, também Stepanenko fez um torneio de grande nível. Na Suíça, o papel de Xhaka, já abordado anteriormente, merece ser novamente relevado. Na República Checa, e apresentando perfis algo diferentes dos jogadores mais criativos abordados anteriormente, Soucek e Holes também se destacaram, principalmente pela competência defensiva. Regressando à criatividade, Kevin De Bruyne, embora tenha atuado na maioria do tempo no tridente mais ofensivo, também merece menção pela forma como impactou o jogo da Bélgica e pela qualidade e capacidade de procurar o espaço entre linhas para receber e definir de forma correta. Forsberg, numa seleção sueca bastante pragmática, foi também destaque com vários lances de levantar o estádio.

De entre os tubarões que caíram nos oitavos e se a qualidade coletiva é questionável, a capacidade individual demonstrada individualmente por certos elementos do miolo é inegável. Pogba fez um torneio fantástico e apresentou-se na sua melhor versão, sempre capaz de mudar o jogo com um passe de rutura ou com um remate de fora de área. Modric foi o único escape do desnorte croata, participando no jogo desde a criação até à definição. Na seleção dos Países Baixos é importante destacar Wijnaldum pela capacidade de se juntar aos dois jogadores da frente e de chegar à área, bem como Frenkie de Jong que atuando pela esquerda (tal como Blind), influenciou a construção de jogo feita maioritariamente pela esquerda. Já na seleção portuguesa e embora nenhum médio tenha alcançado o rendimento de vários dos citados previamente, é importante destacar a entrada de João Moutinho e de Renato Sanches na equipa nacional.

Fonte da imagem: Twitter @LivEchoLFC

Por fim, jogadores como Kamara ou Bardhi, embora não tenham passado a fase de grupos destacaram-se nas respetivas seleções.

Outros destaques do torneio

No entanto, nem só de médios viveu o torneio. Em termos de prémios entregues pela UEFA, para além de Pedri – jovem jogador do torneio – é importante destacar Cristiano Ronaldo – melhor marcador – e Donnarumma – melhor jogador.

Fonte da imagem: Gazeta Esportiva

Na baliza para além de Donnarumma, também Sommer e Schmeichel fizeram um Campeonato da Europa de nível elevado.

Na linha defensiva há uma tendência interessante de explorar: a enorme quantidade de alas destros pela esquerda. Spinazzola e Maelhe foram os principais destaques nesta função, mas jogadores como Zubber ou Thorgan Hazard também desempenharam bem a posição de ala pela esquerda (todos enquadrados num sistema de saída com três defesas). Uma das características destes quatro jogadores é o facto de todos terem um bom pior pé, que permita também fazer o corredor e ocasionalmente chegar à linha para cruzar. No entanto, todos estes laterais ofereciam também muito à partida quando conseguiam criar mais por dentro, beneficiando assim do pé direito. Também pela esquerda se destacou Luke Shaw. Quer por dentro quer por fora, o esquerdino revelou-se fundamental a permitir a progressão inglesa, acrescentando também qualidade nas bolas paredes e cruzamentos para a área.

Em relação à dupla de centrais há uma dupla que merece ser destacada: Chiellini e Bonucci. Ambos não sofreram nenhum drible nem cometeram nenhum erro que desse golo durante o torneio onde beneficiaram dos muitos anos a jogar juntos para criar uma defesa quase intransponível. Bonucci merece ainda a menção à qualidade com a bola nos pés, tendo sido fundamental não só defensivamente, mas também no momento ofensivo. Maguire, Kjaer, Akanji, Laporte e Hinteregger foram outros defesas centrais que, por diferentes qualidades, se destacaram no torneio. À direita a qualidade no corredor esteve algo abaixo da apresentada à esquerda. No entanto é possível destacar Di Lorenzo e Azpilicueta pelo papel de terceiro central na saída de bola, Kimmich que, embora numa posição que não o favorece tanto, manteve a qualidade na construção nesta feita pela ala e Dumfries que embora esteja longe de ser uma referência técnica foi importante no funcionamento ofensivo neerlandês, onde atuou quase como um extremo.

Fonte da imagem: Instagram @bonuccileo19

Saltando o meio-campo (já destacado anteriormente), no ataque também foram vários os jogadores de perfis diferentes que se destacaram. Chiesa começou como suplente, mas ganhou a titularidade durante o torneio face à enorme capacidade de desequilíbrio e de procura da baliza. Insigne é talvez a referência criativa do ataque italiano e, partindo da esquerda para dentro foi sempre capaz de criar perigo. Na seleção inglesa Sterling, por característica do sistema, foi um jogador em evidência pela capacidade de acelerar a partir de um dos corredores para o meio. Após uma fase de grupos algo desinspirada também Harry Kane se destacou na seleção no papel de nove e meio. Além da enorme qualidade na finalização, Harry Kane é também um dos melhores a jogar em apoio e na criação através de lançamentos. Na Dinamarca há espaço para destacar Damsgaard pela criatividade, pela capacidade de drible ou pela meia distância, Dolberg pela qualidade no jogo em apoio e pela aparente recuperação da confiança e Braithwaite, um jogador muito capaz de jogar de costas para a baliza e de acelerar a partir do corredor. Morata, embora muito perdulário, pela capacidade em jogar de forma associativa e Dani Olmo, principalmente como falso nove, foram os destaques da seleção espanhola.

Ainda no ataque Patrick Schick fez um torneio de alto nível onde mais uma vez se provou um jogador capaz em todos os momentos do jogo. Os cinco golos marcados foram um prémio para o seu desempenho. Lukaku voltou a demonstrar enorme capacidade de jogar como pivô a receber de costas para entregar a bola ou rematar, mas também a aproveitar a profundidade. Eden Hazard quando as lesões o permitiram apresentou apontamentos de classe, e foi importante a guardar a bola e a jogar em espaços curtos e a um toque. Na Suécia Isak foi a válvula de escape em profundidade, sendo também um jogador muito interessante a trabalhar dentro de área. Yaremchuk a ponta de lança e Yarmolenko partindo da direita foram os destaques ucranianos: o primeiro muito completo e o segundo altamente desequilibrador. Kiefer Moore foi a referência galesa a jogar de costas para a baliza e a permitir a Bale brilhar através da procura da velocidade, mas também dos cruzamentos. Depay fez uma fase de grupos de alto nível, beneficiando da presença de Weghorst ou de Luuk de Jong e da capacidade destes abrirem espaço. Benzema teve um regresso agridoce, mas apesar da eliminação precoce da seleção gaulesa mostrou mais uma vez que é dos melhores do mundo. Kalajdzic a partir do banco demonstrou detalhes interessantes. Por fim é importante também destacar Embolo e Seferovic que formaram uma dupla interessante na seleção suíça. Embora sejam ambos jogadores capazes de explorar a profundidade e com bom jogo aéreo, foi Embolo quem teve associado ao aproveitamento do espaço, arrastando marcações e permitindo a Seferovic aproveitar áreas livres.

Fonte da imagem: Diário do Nordeste

Ponto alto do futebol por seleções

As grandes competições de seleções são aguardadas pelos adeptos de todo o mundo e vêm sempre envoltas numa enorme ânsia. Este Europeu, apesar da influência da pandemia e de ter sido jogado em tantos países, modelo esse bastante contestável, veio com tudo a que o futebol tem direito. Golos, emoção, favoritos a cair perante surpresas e jogos taticamente riquíssimos marcaram um belo encerrar de temporada e terminaram um jejum de cinco anos sem a maior competição de seleções do Velho Continente.

Os hinos nacionais ainda soarão nos Jogos Olímpicos, onde se perspetivam novos talentos a emergir. As seleções A voltam em setembro para o apuramento para o Mundial 2022 que se aproxima a passos largos. Por agora, as atenções ficaram pela lembrança deste torneio enorme e já com os olhos voltados para a preparação da próxima época.

Fonte da imagem de capa: UEFA.com