Curiosidades: os diversos conflitos que podem ter influenciado a prestação francesa no Euro 2020

De favorita a desilusão, a França teve uma prestação muito aquém das expectativas no Europeu. Apesar da enorme qualidade individual a equipa coletivamente foi incapaz de se apresentar a grande nível e este é certamente o principal motivo da eliminação nos oitavos de final. No entanto, os problemas fora de campo também podem ser fatores que justificam as más exibições francesas no torneio.

Após uma vitória convincente contra a Alemanha, a seleção francesa não conseguiu voltar a vencer no Euro 2020, e mesmo passando em primeiro lugar no apelidado Grupo da Morte (mais mortífero em nome que em qualidade apresentada), nunca demonstraram ser candidatos em termos de qualidade apresentada. A equipa treinada por Deschamps sentiu-se sempre mais confortável com bola do que sem esta, entregou por várias vezes a iniciativa e foi incapaz de criar perigo para além da ameaça à profundidade.

Porém, há um lado por muitos desconhecido e que pode ajudar a explicar alguns dos problemas franceses no Euro 2020. Foram vários os problemas que criaram um ambiente tenso e distanciado no balneário e que, embora não justifiquem a pobreza de ideias apresentadas, tiveram influência no desempenho dos jogadores.

A convocatória de Benzema após anos de ausência após o escândalo com Valbuena foi um risco adotado por Deschamps. Se por um lado passaria a contar com um dos melhores avançados do mundo que encaixaria na perfeição no modelo de jogo francês (quer como lançador quer como elemento no ataque à profundidade), por outro poderia ter de lidar com reações adversas de um balneário coeso e que tinha ganho o Mundial apenas três anos antes. No entanto, e embora muito se tenha especulado sobre o assunto, esta decisão esteve longe de ser o problema da seleção francesa (tanto fora de campo como dentro deste, onde Benzema foi dos melhores, senão o melhor jogador dos gauleses).

O primeiro problema esteve relacionado com uma disputa entre Mbappé e Giroud e que, naturalmente, afetou também os restantes jogadores. Ainda antes do Europeu, após o jogo contra a Bulgária que a França venceu por 3-0, Giroud – autor de dois golos – queixou-se dos poucos passes que recebera de Mbappé: “por vezes movimentas-te, mas a bola não chega a ti. Podíamo-nos ter relacionado melhor.”.

Mbappé tentou inclusivamente participar na conferência de imprensa seguinte de forma a esclarecer tudo e a resolver a questão. De acordo com a imprensa francesa o jovem atacante preferiria que Giroud tivesse abordado o tema em privado e não publicamente. Apesar de Giroud ter resolvido o problema com Mbappé e de ter explicado que as suas palavras não eram dirigidas diretamente ao atacante, segundo a imprensa francesa Mbappé ficou insatisfeito e frustrado com as declarações do conterrâneo.

No entanto, jogadores mais veteranos como Lloris, Mandanda ou Sissoko sentiram-se também incomodados com a atitude de Mbappé, considerada por estes como uma atitude de vedeta.

Com o início do campeonato da Europa, a escolha do hotel no qual a seleção ficou hospedada na Hungria também foi problemática. Segundo alguns jogadores, as janelas dos quartos não podiam ser abertas o que causava uma sensação de confinamento. Também o protocolo da federação que impedia as visitas de familiares de forma a reduzir ao máximo a hipótese dos jogadores e staff contraírem covid-19 foi alvo de críticas por parte dos jogadores franceses. A lesão de Dembelé afetou a moral dos colegas, que consideravam o jogador fundamental para a manutenção do espírito de grupo.

O problema final seria evidenciado após o jogo com a Suíça que resultou na eliminação da França. Perante a equipa suíça, Decshamps apostou numa defesa a três que tentava espelhar a formação suíça. No entanto, o mecanismo ofensivo pelo lado esquerdo do ataque suíço gerou constantes superioridades numéricas no setor defendido por Pavard permitiu à Suíça ser superior durante grande parte da primeira parte. O técnico viria a abdicar da linha de cinco e a colocar Rabiot de volta ao meio-campo, mas excetuando alguns minutos que se seguiram ao penálti falhado por Ricardo Rodriguez, a França não esteve por cima da partida e após estar na frente por 3-1, viria mesmo a permitir o empate à Suíça. No prolongamento o jogo arrastou-se e a partida seria mesmo decidida no desempate por grandes penalidades onde Mbappé falhou o penálti decisivo.

Durante e após este jogo dentro de campo e fora deste jogadores e familiares destes teceram duras críticas sobre a prestação dos colegas em campo. De acordo com a French Football News, durante o jogo contra a Suíça, Rabiot e Pogba envolveram-se em discussões por várias vezes com Rabiot a criticar o trabalho defensivo de Pogba. Também a ausência de trabalho defensivo por parte de Pogba foi a razão dada por Pavard quando Varane repreendeu o posicionamento do lateral direito.

As críticas a Pogba que, apesar da perda de bola na génese do terceiro golo da Suíça, fez uma partida bastante bem conseguida, tanto nos noventa minutos onde marcou um grande golo como no prolongamento no qual foi dos poucos jogadores que manteve o discernimento e o critério, não estiveram, no entanto, confinadas aos jogadores. Também a mãe de Rabiot após o término da partida confrontou a família de Pogba com o erro no terceiro golo helvético. Porém, não só a família de Pogba foi repreendida pela mãe do médio da Juventus; também o pai de Mbappé foi vítima da raiva da mãe de Rabiot que lhe pediu para ensinar o filho a ser menos arrogante.

Foi geral o descontentamento francês após a eliminação precoce. Desde os adeptos aos jogadores o sentimento de desilusão foi enorme. Além das más exibições os confrontos nos balneários e bastidores fazem o fantasma de 2010 regressar. Resta saber se Deschamps, ao contrário de Domenech, conseguirá reerguer a seleção francesa a tempo de fazer boa figura no Mundial 2022.

Fonte da imagem de capa: FRANCK FIFE / POOL / AFP