Históricos: Boavista vs Benfica 2004/05- 11 anos depois, acabou o jejum

Na edição desta semana do “Históricos” recordamos um jogo que até acabou empatado, mas que marcou uma geração de benfiquistas que, depois de uns anos 90 tenebrosos, finalmente teve razões para sorrir.

A 22 de maio de 2005, num jogo a contar para a última jornada da Superliga, Benfica e Boavista subiram ao relvado do Estádio do Bessa com objetivos bastante distintos. Enquanto que os axadrezados entraram sem pressão e já com um honroso sexto lugar garantido, os encarnados  tinham a missão de carimbar o primeiro título de campeão em mais de uma década, sendo que para isso até podiam perder, se o Porto não ganhasse à Académica, numa partida a começar à mesma hora.

As águias passaram por um período bastante conturbado desde o início dos anos 90, marcado por problemas financeiros, plantéis pouco competitivos e vários treinadores por época, culminando em 2001 num sexto lugar, pior classificação da história do clube. A recuperação deu-se já a partir do momento em que Manuel Vilarinho assumiu a presidência, sucedendo a Vale e Azevedo, sendo que em 2004 a conquista da Taça de Portugal, o primeiro troféu desde 1996, foi o primeiro sinal do ressurgir dos tempos gloriosos.

Para a época seguinte, o já presidente Luís Filipe Vieira escolheu o italiano Giovanni Trapattoni para treinar uma equipa que tinha um onze inicial bastante sólido mas que pecava pela falta de profundidade. Tendo como exemplo os onze jogadores escalados por Trap para esta derradeira partida, saltam à vista nomes como Miguel, Luisão, Petit, Simão Sabrosa ou Nuno Gomes, enquanto que o banco de suplentes, excetuando Pedro Mantorras, não tinha opções com uma qualidade comparável aos nomes acima referidos.

O onze inicial do jogo do título

Essa lacuna fez-se sentir ao longo da época, devido a ausências frequentes dos titulares por lesão ou castigo, justificando parcialmente a conquista de apenas 65 pontos ao longo desta caminhada. A quantidade de pontos perdidos por Benfica, Porto e Sporting durante todo o campeonato. ajuda a perceber o porquê da edição 2004/05 ser relembrada como “a liga que ninguém queria ganhar”, sendo que este número atinge proporções ainda maiores se compararmos com os campeões desde 2014 (altura em que a liga voltou a ser composta por 18 equipas), já que todos fizeram 80 ou mais pontos no seu percurso vitorioso.

Ainda assim, a equipa da Luz chegou ao Estádio do Bessa em primeiro lugar com 64 pontos, mais três do que os dragões e mais quatro do que os leões, depois de na jornada anterior ter vencido os rivais da Segunda Circular por uma bola a zero, com um golo de Luisão nos últimos dez minutos que os afastou da liderança e da rota do título.

Voltando ao jogo que motivou esta retrospetiva histórica, na primeira parte, o Benfica assumiu as despesas do jogo, normalmente através de transições rápidas comandadas por Manuel Fernandes e Nuno Assis, que lançavam na profundidade para o trio da frente composto por Giovanni, Simão e Nuno Gomes explorar as costas dos defesas boavisteiros e criar perigo.

Foi precisamente a partir de uma jogada dessas que surgiu o lance que permitiu aos encarnados adiantar-se no marcador: aos 37 minutos de jogo, Petit fez um passe longo para a entrada da área onde Giovanni dominou a bola, e depois de uma disputa com Cadú, o defesa central tocou no esférico com a mão, forçando o árbitro a assinalar grande penalidade. Da marca dos 11 metros, Simão Sabrosa, com a sua calma habitual, não tremeu e marcou o primeiro golo da partida, o seu 22º na temporada, uma das melhores da sua carreira.

A festa do golo de Simão Sabrosa

Contudo, a vantagem encarnada não durou muito tempo, já que cinco minutos depois, na sequência de um pontapé de canto, o capitão axadrezado Éder Gaúcho cabeceou sem marcação para o fundo da baliza de Quim e restabeleceu o empate na partida. A ansiedade voltava a tomar conta dos adeptos benfiquistas presentes no estádio e ainda se intensificou mais quando já na segunda parte foi recebida a informação que o Porto estava a ganhar à Académica, significando que mais um golo no Bessa a favor da equipa da casa atirava o título para o Estádio do Dragão.

Consciente dessa informação, a armada lisboeta aumentou a pressão sobre o adversário, com Simão, primeiro, a obrigar Khadim a esticar-se para defender um remate colocado e depois, Petit a criar perigo com um cruzamento venenoso que Luisão não conseguiu desviar para a baliza. O ambiente estava de cortar à faca e sobressaía o silêncio até bem perto do minuto 90, quando se deu uma explosão de alegria nas bancadas. A razão? Joane tinha acabado de marcar o golo do empate da Académica no outro lado da cidade, aniquilando qualquer réstia de esperança dos azuis e brancos em chegar ao tricampeonato.

1-1 no Bessa, 1-1 no Dragão, e o título já não ia fugir ao Benfica.

A euforia tomou conta de toda a gente vestida de vermelho e branco presente no estádio, e passados os três minutos de compensação, passou também para os 11 homens que no relvado festejaram um título que há duas jornadas atrás parecia uma miragem. Nessa noite, a cidade do Porto vestiu-se de vermelho para festejar uma conquista inédita no século XXI e que terminou com Simão Sabrosa e Nuno Gomes, só de roupa interior depois de uma invasão de campo dos adeptos, algo impensável nos dias de hoje.

Mais do que pelos 90 minutos jogados, esta partida ficou eternizada por simbolizar o fim de um dos capítulos mais negros da história do Sport Lisboa e Benfica, rumo a tempos mais estáveis, felizes e que condizem com os valores deste clube centenário.

Fonte das imagem: Site oficial do SL Benfica