A Conference League e a evolução das Competições Europeias

Como sabemos, iniciou-se esta temporada uma nova competição europeia de clubes – a Conference League, ou, aportuguesando, a Liga Conferência, que será a terceira prova na hierarquia da UEFA.

Esta criação serve de mote para analisarmos a evolução das competições internacionais de clubes na Europa, mas também o impacto destas (e sobretudo da mais recente) na integração e na diferenciação de várias realidades futebolísticas do velho continente.

Convém ressalvar que foi precisamente na Europa que o jogo começou. Em Inglaterra, primeiro; na Escócia, depois – estávamos a meio do séc. XIX. Podemos afirmar que as primeiras competições envolvendo clubes de federações diferentes foram os jogos entre ingleses e escoceses, naquilo que hoje seria uma espécie de supertaça – os vencedores de campeonatos e taças de um lado e de outro defrontavam-se.

Com o jogo a emergir e a proliferar-se pela Europa continental, surgem as primeiras ligas nacionais – Áustria, Hungria, Boémia (que evoluirá mais tarde para Checoslováquia), Itália, França e Alemanha, sobretudo. Rapidamente ganham protagonismo, atraem a atenção dos adeptos que vão surgindo e melhoram as suas condições, tornando-se profissionais. E alimentam a ideia de mais contactos internacionais entre si. No entanto, ao eclodir a primeira guerra mundial, estes projetos ficaram suspensos.

Após o conflito mundial e a reorganização geográfica e sociopolítica mais próxima da nossa contemporaneidade, nascem então as primeiras competições internacionais de clubes. A Taça Mitropa, no período entre guerras, foi uma prova anual que reunia as melhores equipas do melhor futebol da época (excluindo os britânicos, aos quais apenas importava a sua ilha) – 3 e 4 equipas austríacas, húngara, checoslovacas, italianas (mais tarde, suíças e jugoslavas), num sistema a eliminar decidiam numa final a duas mão quem era o “campeão europeu”.

Esta prova distingue-se das restantes na época, pelo seu carácter anual, durante quase duas décadas. Houve, no entanto, eventos de grande importância, mas com uma única edição: a Coupe des Nations, realizada em Genebra, em 1930, onde estiveram campeões/vencedores de taça de 10 federações diferentes – ganha pelo campeão húngaro Újpest –, e o Torneio Internacional de Futebol da Exposição Universal de Paris, no Verão de 1937, com a participação de 8 equipas de 7 países diferentes (vencedores de campeonatos e taças nacionais) – conquistado pelo campeão transalpino Bologna. Dois anos depois, começa a segunda grande guerra, que impedirá a continuidade e crescimento das competições existentes.

Com uma Europa devastada pelas atrocidades do conflito, foi feito um esforço enorme para priorizar as semelhanças e não as diferenças, unir em vez de segregar ou isolar. Neste registo, o desporto teria um papel estratégico fundamental. 9 anos depois da assinatura do Armistício, é criada na Suíça a Union of European Football Associations – UEFA.

O organismo que tutela o futebol europeu veio acrescentar mais dinamismo e estabilidade ao desporto-rei na Europa, uniformizando regras, difundindo jogos e dando a conhecer jogadores e treinador. Para o efeito, entre outras medidas, foram criadas duas competições de clubes – uma destinada aos campeões nacionais (Taça dos Clubes Campeões Europeus) e outra, poucos anos depois, com o objetivo de agregar todos os vencedores das taças nacionais (Taça dos Vencedores das Taças) – ambas num formato a eliminar e com uma final em campo neutro.

Surge paralelamente, com caráter oficioso, a Taça das Cidades com Feira – competição para promover as grandes feiras e exposições internacionais, das principais cidades europeias. Apenas no início dos anos 70, esta prova é reformulada e tornada oficial (a terceira na hierarquia uefeira), com o nome de Taça UEFA. Já neste século, esta prova começa por ganhar uma fase de grupos, para depois ser rebatizada de Liga Europa.

A Taça Intertoto surge nos anos 60, para que existissem jogos internacionais no Verão, mantendo o negócio dos jogos de apostas ativo e dinâmico. Mas só nos anos 90 é que a UEFA tomou conta da competição, fazendo dela uma última oportunidade para alguns clubes atingirem a então Taça UEFA – o último vencedor da prova, com direito a trofeu e tudo, foi o Sp. Braga, em 2008 (por ter sido o emblema a chegar mais longe nessa edição da Taça UEFA) – sendo que Sporting CP (1968), CUF (1974) e Belenenses (1975) também aparecem na lista de vencedores (moldes competitivos diferentes e sem a alçada da UEFA).

Com o desaparecimento da Taça dos Vencedores das Taças, em 1999 e da Taça Intertoto, em 2008, o futebol europeu manteve apenas duas competições de clubes até à presente época, com o surgimento da Conference League.

Sob o signo da inclusão

A nova competição pretende, no fundo, dar mais espaço e protagonismo a equipas menos cotadas, essencialmente das federações com rankings mais inferiores. De facto, com a Conference League e com a reestruturação do sistema de eliminatórias na Champions e na Europa League, pelo menos 80% das federações estarão representadas num dos grupos da fase regular das três competições (24 grupos no total, 96 equipas em campo).

Esta percentagem, que considero elevada (e positiva), explica-se pelos vários campeões nacionais que vão sendo eliminados da Liga dos Campeões, terem a possibilidade de seguir os seus percursos, quer na Liga Europa, quer na Liga Conferência – ou seja, apenas 13/14 campeões ficarão fora das fases regulares das competições europeias.

Ao mesmo tempo, com a criação do “caminho dos campeões” e do “caminho das ligas”, nas trajetórias das eliminatórias de todas as competições, permite maior equilíbrio e competitividade nos confrontos (isto é, será mais benéfico e equitativo embates entre os campeões de Gibraltar, de Andorra, da Estónia ou do Kosovo, do que embates entre estas equipas e quartos ou quintos classificados de ligas como a alemã, a portuguesa ou a belga)

Ora, pela lógica, existindo confrontos mais equilibrados, a capacidade de clubes mais modestos ganharem jogos e ultrapassarem eliminatórias aumenta exponencialmente. Esta premissa vai possibilitar também que as federações da cauda do ranking europeu comecem a amealhar pontos e trepar alguns lugares na tabela.

Este espectro terá eventualmente impacto a médio/longo prazo, não tanto em número de representantes na Europa, mas sobretudo na entrada mais tardia no processo qualificatório – o que será sempre uma vantagem, financeira e desportiva.

Qual o caminho?

Como em (quase) tudo na vida, não há um único caminho para atingir um determinado fim. Nem haverá o mesmo cenário, com protagonistas diferentes. Deste modo, fazer um paralelismo entre a estrutura mais holística das provas europeias de clubes e as outras competições continentais, de outras modalidade, terá sempre reservas – ou por uma questão cultural, ou por razões financeiras, ou mesmo por aspetos logísticos e de distância.

Ainda assim, há alguns pontos nos quais podemos analisar e tentar comparar. Para começar, seria interessante a criação de um formato mais híbrido na Champions League, entre o atual e aquele que observamos nas ligas norte-americanas, por exemplo (NBA, NFL ou MLB), ou na Champions de andebol ou de basquetebol – excluindo a aberrante ideia de um sistema fechado, em que só alguns participam.

Mas, ao adotar um modelo com menos fases preliminares, com mais equipas na fase de grupos, com grupos maiores (com 6 equipas), com mais jogos e com mais fases a eliminar (pelo menos, mais uma), e com uma fase final, com as 4 ou as 8 melhores do torneio (à semelhança do que foi feito em 2020, em Lisboa), permitirá que mais equipas, diferentes equipas, progridam mais na competição. E algumas delas tenham um vislumbre de vitória que, atualmente, é impossível – convenhamos, a conquista da Europa é para 4 ou 5 equipas, lamentavelmente.

Este fosso entre os vários participantes tem vindo a aumentar. Para isso, muito contribuíram os valores obscenos de patrocínios e de transferências, só ao alcance de muito poucos. Para isso, a implementação de tetos salariais, ou o limite de valores para transferências, consoante o respetivo país e o histórico internacional dos últimos anos, seriam boas contribuições para aproximar a capacidade competitiva dos clubes. Também a valorização da formação deveria ter impacto: uma quota de jogadores formados no clube e no país deveria ser considerada (de forma efetiva, em campo – não a criação de uma lista B, nas inscrições de jogadores nas provas europeias, cujo significado real é…nulo).

Curioso o facto de, atualmente, só 17 campeões estarem na fase de grupos da Champions League. Manifestamente pouco quando temos 54 campeões por ano. E mais do que pouco…é ser limitativo (nem mais nem menos). A minha pergunta é provocatória: fará mais sentido a entrada direta de um qualquer quinto classificado de uma determinada liga, ou um multi-campeão de um país periférico? E a resposta, para mim, é óbvia: os campeões merecem mais. Não todos, mas mais do que os atualmente 4 provenientes das pré-eliminatórias… Com um desejado aumento de vagas (como frisei acima), haveria mais oportunidades para todos.

Por fim, um aspeto não menos importante – o calendário. É verdade que o Inverno é bastante rigoroso na Europa, mas não creio existir evidências realistas para impedir que em janeiro e fevereiro não se realizem jogos internacionais. A justificação dada, aparentemente, é: em determinados países não se pode prometer a realização de jogos nessa época, visto que o clima é agreste, muito adverso.

Agora…dando um exemplo – em setembro de 2016, em Manchester, um jogo da Liga dos Campeões teve que ser adiado devido a um autêntico dilúvio que se abateu na cidade (ou seja, não estamos no Inverno, não estamos num país em que o Inverno faz parar o futebol, e não estamos a falar de fortes nevões…).

Dito isto, a imprevisibilidade das condições climáticas não deve ser sazonal. E hoje em dia, com a evolução dos sorteios das competições, há uma série de condicionalismos a colocar digitalmente, fazendo com que se evite ao máximo jogos em certos países, nessa altura do ano. Devemos, por isso, rentabilizar o calendário, possibilitando mais jogos nos períodos de Inverno, com a realização de partidas mais espaçada e maior tempo de recuperação entre as mesmas.

Nota: estão a decorrer as eliminatórias da Conference League. Faremos o balanço relativo ao supra falado quando tivermos o quadro final dos participante desta e das outras duas competições. Para já, todavia, destaco a passagem à terceira fase de qualificação (de 5), de equipas de Malta, do Cazaquistão, das Ilhas Faroé, do Kosovo, da Albânia, do Luxemburgo, da Irlanda do Norte, da Rep. Irlanda, de Gales, da Islândia, da Geórgia, do Azerbaijão e da Letónia – 13 federações entre as piores 20 do ranking de clubes, pelo menos, prosseguem na competição. É um dado muito significativo, uma vez que a representação destes países, na maior parte das vezes, não passaria uma primeira e, sobretudo, uma segunda eliminatória.

 

Fonte de imagem: Jornal Record