Opinião da Semana: ADN de Champions

Chegou ao fim a primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões e, naturalmente, é necessário explicar as ilações que se retiraram da prestação dos clubes portugueses.  Não é nenhuma surpresa para os adeptos do desporto-rei que o FC Porto é a equipa portuguesa com maior prestígio na liga milionária, não apenas devido ao seu historial na competição, como também pelo facto de ser dos poucos clubes que os grandes tubarões europeus têm procurado evitar recentemente.

Desde que Sérgio Conceição assumiu as rédeas da equipa principal, os dragões têm constantemente marcado presença nas eliminatórias da maior competição de clubes do mundo, feito este que pode ser analisado através de diversos parâmetros. O que se destaca em primeiro lugar é a atitude da equipa, isto é, a personalidade do vice campeão nacional sempre que atua nos palcos europeus.

À imagem do seu treinador, os jogadores portistas caracterizam-se pelo espírito de luta  que demonstram dentro das quatro linhas. Cada corte é tratado como se fosse um golo nos minutos decisivos do encontro, nenhuma bola é dada como perdida e os lances divididos são abordados com uma intensidade muitas vezes superior à dos adversários. Por outras palavras, em relação aos grandes clubes da Europa, o que o FC Porto não consegue ter em talento ou em recursos económicos compensa com o seu coletivo, sendo assim capaz de ocultar a deficiência técnica de atletas como Zaidu.

O segundo aspeto em ter em conta prende-se com os processos táticos postos em prática. Ao contrário do que ocorre na Liga Portuguesa, os comandados de Sérgio Conceição não precisam de assumir o controlo do jogo para serem competitivos na Champions. Por ser uma equipa que dá primazia ao coletivo, é normal que contra a elite europeia se aposte num modelo mais defensivo, explorando a velocidade de Luiz Días, Taremi e Toni Martínez através dos contra-ataques.

Mas enquanto que outros clubes passam uma grande porção da partida atrás da linha do meio-campo, o FC Porto tem como vantagem a sua leitura impecável dos momentos do jogo.

O treinador portista organizou o plantel de forma a que fosse possível variar a forma como este defende dentro de campo. Com o esquema 4-4-2, torna-se mais fácil subir no terreno para pressionar a defesa contrária, ao mesmo que, em momentos de maior aperto, recorresse a um bloco mais baixo. Ou seja, é o FC Porto que determina o ritmo a que se joga, independentemente se tem a posse de bola ou não. Uma filosofia que condicionou completamente o Atlético de Madrid.

O campeão espanhol é conhecido pela sua abordagem mais defensiva, em que Simeone obriga quase toda a equipa, até mesmo as unidades mais criativas, a ajudar na proteção da baliza “colchonera”. Logo aqui é visível uma grande semelhança com a tática de Sérgio Conceição, dois treinadores que valorizam o jogo mais físico e direto em detrimento do chamado futebol «bonito». No entanto, à custa da lealdade a essa ideologia, os “rojiblancos” não apresentam um ataque organizado bastante desenvolvido, apesar de possuírem nas suas fileiras jogadores de ataque como João Félix e Griezmann.

A gritante deformidade do Atlético de Madrid em encontrar espaços contra uma defesa bem organizada revelou-se a janela de oportunidade que a equipa portuguesa aproveitou até ao limite. Aliado à experiência de Pepe, Otávio, Corona e Sérgio Oliveira, o FC Porto travou por completo o gigante espanhol em mais uma noite europeia de ouro e podia ter saído do Wanda Metropolitano com os três pontos não fosse o polémico golo anulado a Taremi.

Este é o ADN de Champions ao qual os azuis e brancos nos têm habituado nos tempos modernos, a capacidade de elevar o seu nível quando a exigência é colossal.  Só o Benfica conseguiu, em certa medida, aproximar-se da produtividade do rival nacional, embora não tenha evitado alguns sustos pelo caminho.

Na terça-feira viu-se um Benfica dominador, a tentar contrariar o passado recente que experienciou nas competições europeias. Depois do fracasso da época passada, que teve repercussões não só desportivas como também financeiras, os discípulos de Jorge Jesus não fizeram um jogo brilhante frente ao Dínamo de Kiev, mas foram claramente superiores ao adversário até aos últimos três minutos do desafio.

Não fosse o desperdício cara a cara com o guardião ucraniano e as substituições mal calculadas que retiraram fluidez ofensiva, talvez estaríamos hoje a falar de uma vitória justa do atual líder do campeonato e não de um embate em que as “águias” foram salvas pelo VAR no último minuto da compensação. Não obstante, caso melhore a sua eficácia, o Benfica tem possibilidades reais de tirar pontos ao Barcelona em pleno Estádio da Luz.

Já no que se refere ao Sporting, preocupa a forma como se sentiu a falta da liderança de Coates e da genialidade de Pedro Gonçalves em campo. Sem as duas principais figuras do grupo de trabalho, o campeão nacional não teve sorte nem engenho para evitar uma pesada derrota em Alvalade contra uma equipa do Ajax claramente mais experiente e melhor rotinada. Resta agora esperar que os melhores atletas do clube recuperem de lesão e que Sarabia possa dar mais poder de fogo na condição de titular.

Fonte da imagem: Twitter FC Porto/@FCPorto