Opinião da Semana: Estoril-Praia, surpresa ou um projeto desportivo bem definido?

No ano de regresso ao primeiro escalão do futebol português, o Estoril tem sido a equipa sensação deste início de campeonato. A derrota na última jornada frente ao Sporting não retira mérito aos canarinhos que, volvidos seis jogos, se encontram no quarto lugar da tabela classificativa e a praticar um futebol atrativo, sendo relevante por isso olhar mais detalhadamente para um dos projetos mais entusiasmantes da Liga Bwin. 

A descida de divisão em 2018 e a consequente alteração de objetivos, obrigou os responsáveis estorilistas a repensar a estratégia utilizada até aí, passando de uma maior aposta no mercado brasileiro e em jogadores experientes para um rejuvenescimento e emagrecimento salarial do plantel. A mudança de paradigma abrangeu também a equipa técnica sendo que a escolha foi recaindo em treinadores jovens como Luís Freire ou Tiago Fernandes que conseguiram manter a competividade da equipa, que ficou mesmo no top-5 em 2019 e em 2020, mas a incapacidade de subir de novo acabou por custar o cargo a ambos, que não acabaram a temporada na Amoreira.

Desta forma, quando no verão de 2020, Bruno Pinheiro, um perfeito desconhecido para os adeptos canarinhos,  foi apresentado como o novo “comandante” dos canarinhos, a desconfiança era grande e poucos acreditavam que se mantivesse no cargo durante toda época. Apesar, do desconhecimento geral, o  percurso do treinador de 44 anos não deixava de ser bastante interessante, especialmente ao nível da formação, primeiro, em Portugal, no Belenenses, e depois no Qatar onde orientou as equipas de sub-19 e sub-2o de um país em clara ascensão no panorama mundial, além de uma passagem pelo Elétrico da Ponte de Sor, a única como treinador principal antes de chegar ao Estoril.

Esta dicotomia entre a perceção geral e o verdadeiro valor de Bruno Pinheiro aconteceu também com o plantel que conseguiu subir de divisão contra todas as expetativas iniciais. Jogadores como Dani Figueira, Carles Soria, André Vidigal ou o melhor jogador da segunda liga 2020/2021, Miguel Crespo, revelaram toda a sua qualidade e apresentaram-se ao futebol português enquanto que Joãozinho, Gamboa ou Hugo Gomes, com a sua experiência complementaram da melhor forma um plantel muito jovem (média de idades a rondar os 24 anos). A profundidade do seu conjunto foi uma das chaves para os canarinhos fazerem um percurso regular e consistente na Segunda Liga, algo que tinha faltado em anos anteriores, e que lhes permitiu dar o salto competitivo e acabar no primeiro lugar com apenas quatro derrotas e 26 golos sofridos, além de terem chegado ás meias-finais da Taça de Portugal, onde só foram eliminados pelo SL Benfica.

Os festejos da conquista da Segunda Liga

O primeiro passo do projeto estava alcançado: a projeção mediática. O que se seguia agora era a consolidação, já na Primeira Liga, do modelo de jogo de Bruno Pinheiro de forma a alcançar a manutenção, apesar de todas as mudanças que o plantel sofreu durante o verão. As saídas de jogadores importantes na época transata como Hugo Basto, Aziz, Vidigal, Zé Valente e já depois de agosto, de Miguel Crespo, foram colmatadas através de transferências de baixo custo, pela promoção de vários jovens da equipa de sub-23, campeã da Liga Revelação em 20/21 e por um aumento de responsabilidade de jogadores que já se encontravam no plantel como André Franco ou Bruno Lourenço.  Francisco Geraldes, Patrick William, Ferraresi, Romário Baró (por empréstimo), Rui Fonte, Xavier e Leonardo Ruiz (custo zero) foram adições que permitiram aos estorilistas não perder qualidade nem profundidade sem perder a sua identidade.

Desta forma, é difícil prever o onze dos canarinhos, especialmente do meio-campo para a frente, tal é a quantidade e qualidade dos interveniente à disposição do treinador. Ainda assim é possível verificar que a equipa habitualmente dispõe-se num 4x3x3 com um pivot, seja ele Rosier ou Gamboa, que em manobra defensiva desce para o pé dos centrais, criando uma linha de cinco defensores para cobrir os espaços entre o central e o lateral, num 5x3x2 que procura recuperar rapidamente a bola após a perda. Curiosamente no último encontro com os leões, o conjunto amarelo apresentou-se num duplo pivot, que deixou André Franco como o único médio de cariz mais ofensivo, sendo interessante, nos próximos jogos, verificar se esta foi uma estratégia momentânea ou se é uma consequência da saída de Crespo. Além de Franco, que também tem sido utilizado pela esquerda, Geraldes, Romário Baró e Bruno Lourenço já tiveram tempo de jogo na posição mais adiantada do meio-campo, que apoia o ataque, habitualmente composto por André Clóvis, Leonardo Ruiz ou Chiquinho.

Onze base do Estoril 2021/2022

Este último, aos 21 anos, é o mais recente exemplo da excelência da formação estorilista, um dos pilares do projeto desportivo da equipa. Depois de dois anos onde dividiu atenções entre a equipa sub-23, onde foi uma das principais figuras, e equipa principal, esta é a época de afirmação de Chiquinho, que tem sido um dos homens de confiança de Bruno Pinheiro, levando já dois golos marcados em oito jogos efetuados neste início de temporada. A aposta na prata da casa é cada vez maior e o aparecimento da Liga Revelação aliado à escolha do antigo jogador Hugo Leal para responsável pelo futebol de formação explicam a ascensão do Estoril como uma das melhores entidades formadoras do país, já com resultados palpáveis. A conquista da Liga e da Taça Revelação na temporada transata, refletem o trabalho que está a ser efetuado com o objetivo de que cada vez mais jovens façam a sua formação no clube da linha e sejam desde cedo confrontados com a ideia de jogo e o ADN do clube e que ganhem experiência na equipa sub-23 para depois poderem ser utilizados na equipa principal em tempo oportuno.

Não cair na tentação de apostar no conhecido, manter-se fiel a uma ideia e a um modelo de jogo, promover a integração consciente de jogadores oriundos das camadas jovens. Estas três ideias são os pilares do projeto desportivo de uma equipa que desceu de divisão mas que não entrou em pânico e optou por construir um plano a longo prazo com dois grandes objetivos, a subida, primeiro, e a manutenção na Primeira Liga sem abdicar do seu ADN e da sua ideia de jogo, depois. Para bem do futebol português, é imperativo que mais clubes sigam o exemplo do Estoril,  tanto em termos de gestão desportiva como de mentalidade competitiva, que privilegie um planeamento de época bem definido e uma atitude desinibida cada vez que entram em campo.

Respondendo assim à pergunta inicial, pode-se considerar o Estoril uma surpresa mas a verdade é que por detrás do sucesso desportivo, está uma ideia inovadora e agradável que, se for seguida por mais clubes, poderá aumentar a qualidade mas também alterar a mentalidades no futebol português.

 

Fonte da foto de capa: Facebook Estoril-Praia Futebol SAD

Foto das tácticas: Sharemytactics

Foto do Estoril campeão da Segunda Liga: site Sintranotícias