Como Joga: Itália 2021

37 jogos sem perder é o recorde mundial de invencibilidade no futebol de seleções e foi alcançado este ano pela Itália de Roberto Mancini. Na rubrica “Como Joga” desta semana analisamos a seleção que pôs o mundo do futebol a vibrar no último verão.

Foram quase três anos em que a seleção italiana não conheceu o sabor da derrota. De dez de outubro de 2018 a seis de outubro de 2021, a Squadra Azurra venceu ou empatou todos os jogos. Curiosamente foram as duas seleções da Península Ibérica as últimas a derrotar a equipa liderada por Mancini: Portugal ainda em 2018 e a Espanha, na partida realizada na terça-feira a contar para a Liga das Nações.

Pelo meio, uma qualificação 100% vitoriosa para o Europeu, a fase de grupos da Liga das Nações, o início do apuramento para o Mundial e, naturalmente, o Euro 2020 conquistado pela seleção italiana e em análise neste artigo.

Formação Base

Na baliza o titular indiscutível é, desde a saída de Buffon, Gianluigi Donnaruma e assim deve continuar durante largos anos. Apesar de ter ainda 22 anos, o jovem guardião já joga ao mais alto nível desde 2015 e apresenta uma maturidade e conhecimento do jogo muito alta. Se na baliza reina a juventude, a dupla de centrais já está consagrada há largos anos: Chiellini e Bonucci continuam a formar o eixo da defesa e foram os titulares no Europeu. Na lateral direita, a lesão de Florenzi no jogo inaugural precipitou a titularidade de Di Lorenzo que assumiu o lugar. À esquerda (até à lesão grave sofrida) Spinazzola foi indiscutível e mesmo um dos melhores laterais do torneio. No meio-campo (com funções diferentes que serão detalhadas mais à frente), Jorginho, Verratti (que começou o Euro lesionado, mas assumiu a posição que começou por ser de Locatelli) e Barella eram os preferidos de Mancini. Os três homens da frente foram, regra geral, Insigne, Immobile e Chiesa (que assumiu na fase a eliminar o lugar de Berardi).

Fonte de imagem: shremytactics.com

Momento ofensivo

Construção desde o guarda-redes, saída pelo corredor central e procura da aceleração através de inversões rápidas do corredor. O ataque posicional italiano bem trabalhado e executado revelou-se uma arma difícil de travar. Partindo do 4-3-3 como base, as diferentes características individuais exponenciadas por um coletivo solidário explicam várias das nuances táticas de uma Itália que, ofensivamente, se apresentava em campo em 3-2-5 (com o lateral esquerdo e um dos médios a juntarem-se aos homens da frente). A saída de bola em 3+2 juntava dois centrais, o lateral direito e dois médios (embora também fosse comum a presença de apenas um único elemento do meio-campo), bem como Donnaruma, sempre solicitado e disponível para orientar a saída. Chiellini à esquerda e Di Lorenzo à direita abriam de forma a obrigar o adversário a estender-se na pressão e a criar espaço para circular a bola. Pela qualidade no passe (curto e longo), Bonucci era o destaque principal com bola nos pés. Jogando mais descaído na esquerda, Chiellini progredindo no terreno em posse tinha também um papel fundamental na criação de vantagens numéricas nesse setor.

À frente da linha defensiva, Jorginho e Verratti – os expoentes máximos do jogo italiano dada a importância do meio-campo – permitiam que a circulação se realizasse preferencialmente pelo corredor central. Jorginho era o pêndulo da distribuição, o jogador encarregue de pautar o jogo, de decidir quando e como acelerar ou pausar a partida e de fazer a ligação entre os setores. Já Verratti, embora pudesse jogar mais à frente, juntava-se geralmente a Jorginho de forma a tornar mais fluída a circulação e facilitar a superação da pressão. Ambos os homens procuravam colocar-se como terceiro homem permitindo as triangulações e procurando receber de forma a verem o jogo de frente (num modelo com semelhanças às dinâmicas de De Zerbi no Sassuolo).

Com a bola já perto do último terço, era possível identificar a tal linha de cinco homens. A Insigne, Immobile e Chiesa juntavam-se Spinazzola e Barella. O lateral esquerdo atuava como um extremo e o médio tinha uma função diferente da dos colegas do miolo: não era o pautador/ criador de jogo, mas sim o médio da chegada, da infiltração, da definição.

As características individuais dos jogadores italianos eram exponenciadas pelos mecanismos coletivos, numa harmonia que explica muita da união e da alegria de grupo que ajudou à conquista do Europeu. Insigne beneficiava da profundidade oferecida por Spinazzola (que, sendo um destro a atuar pela esquerda além do jogo exterior também oferecia jogo interior), e tinha liberdade para aparecer em terrenos mais centrais e de desequilibrar partindo da esquerda para o meio onde mais facilmente podia acionar o pé direito. A maior concentração de jogadas pelo centro e pela esquerda também era intencional, uma vez que facilitava a definição pelo corredor direito. Atraindo os jogadores adversários para o lado da bola deixava muito espaço livre para Chiesa, um jogador muito vertical, entrar em diagonal e atacar a área. Com campo aberto para percorrer, o extremo revelou-se fundamental a decidir partidas com golo. Por fim, o jogador mais centralizado do ataque foi talvez o maior questionamento de Mancini. Embora seja um jogador muito interessante dentro de área, a falta de rendimento de Immobile durante o torneio pode ser explicada pela necessidade do ponta de lança jogar em apoio, onde o avançado da Lazio não se sente tão confortável. Ocasionalmente Mancini abdicou do ponta de lança e colocou Insigne como falso nove, fazendo entrar outro extremo (Berardi geralmente). Embora perdesse capacidade aérea e de receber a bola de costas para a baliza, a mobilidade de Insigne aliada à sua capacidade de jogar de forma associativa permitia desmontar defesas. Na final do Europeu foi após esta alteração que a seleção italiana impôs definitivamente o seu jogo e chegou ao golo.

Momento defensivo

Defensivamente, a seleção orientada por Mancini regia-se pelo princípio da pressão alta que tentava limitar as possibilidades da seleção adversária sair desde a sua área. Focando a pressão maioritariamente no corredor central, a seleção italiana procurava guiar a equipa adversária para os corredores que rapidamente seriam fechados ou obrigar os adversários a recorrerem à bola longa e aos duelos contra Chiellini e Bonucci.

Apesar da estrutura base do 4-3-3, também no processo defensivo havia pequenas nuances a nível do posicionamento de certos jogadores, procurando adaptar o posicionamento destes às exigências apresentadas pelo adversário. Assim, era frequente ver os dois extremos na linha dos médios num 4-5-1, ou ver Barella a desprender-se desta linha para jogar atrás do ponta de lança num 4-4-1-1.

A nível individual e para além da relevância de Donnaruma (melhor jogador do torneio), que respondia ao que a equipa não conseguia resolver, e da dupla de centrais, é importante destacar o papel de Jorginho. Se ofensivamente o médio era o pêndulo da distribuição, defensivamente era o responsável por um grande raio de ação, cobrido os outros dois médios e fazendo da sua capacidade de previsão e de leitura do jogo as principais armas para se antecipar e roubar bolas.

Fonte da imagem: UEFA.com

Resultados

O sucesso da seleção italiana foi consagrado com o título. Após uma fase de grupos impecável e passada só com vitórias e sem golos sofridos, os jogos a eliminar trouxeram novos desafios bem mais difíceis à Squadra Azurra, que enfrentou adversários de nível superior. No entanto, mesmo nestes jogos (com exceção da partida contra a seleção espanhola naquele que foi porventura o jogo mais bem disputado do torneio) foi superior ao adversário e tal superioridade foi convertida em golos e vitórias.

Ainda em renovação e após uns anos tenebrosos, a Itália tem tudo para se manter no mais alto nível do futebol mundial. O próximo passo estará muito relacionado à performance no Mundial, competição à qual a Itália regressa já no próximo ano.

Fonte da imagem de capa: El País