Opinião da Semana: Darwin e a Teoria da Evolução Encarnada

Apesar da recente derrota contra o Portimonense, o Benfica de Jorge Jesus tem feito um início de temporada quase a roçar a perfeição. Num total de 14 jogos disputados, os “encarnados” venceram 11 partidas, empataram 2 e perderam apenas 1. Ou seja, até ao desaire surpreendente com os algarvios em pleno Estádio da Luz, as “águias” eram a única equipa portuguesa imbatível em todas as competições, com os seus 28 tentos concretizados a superarem drasticamente os seus 6 golos sofridos.

É seguro afirmar que o Benfica desta época está num patamar muito acima da equipa da temporada passada, resultante de diversos fatores, entre os quais, o regresso à titularidade de Vlachodimos; o sistema com três centrais que elevou as prestações de Otamendi, Lucas Veríssimo e Vertonghen; a preponderância de João Mário como principal distribuidor de jogo no meio-campo encarnado e a chegada triunfante de Yaremchuk para colmatar a lesão de Seferovic e as saídas de Vinícius e Waldschmidt.

Mas talvez aquele que seja o maior motivo para o renascer das cinzas do colosso de Lisboa é a tão esperada afirmação de uma jovem promessa, vista como o sucessor natural de Suárez e Cavani na seleção do Uruguai. Estamos, obviamente, a falar de Darwin Núñez, o avançado que volta agora a estar nas bocas do mundo do futebol.

Antes demais, é necessário esclarecer que a ascensão de Darwin ao estatuto de titular absoluto não é propriamente uma surpresa, apenas demorou mais do que aquilo que seria expectável após a sua contratação.

O avançado de 1,87m chegou a Lisboa do Almería rotulado como a próxima grande estrela da Liga Portuguesa, transformando-se, ao mesmo tempo, na contratação mais cara de sempre do clube da Luz ( 24 milhões de euros ). Logo à partida, o atacante nascido nas Artigas deparava-se com um desafio praticamente herculano, tendo em conta o contexto em que acabara de ser inserido. Não só tinha integrado um plantel que ainda estava a ultrapassar um processo de restruturação intenso, com as recentes transferências milionárias e a entrada de Jorge Jesus para a função de treinador principal, como também tinha sido encarregado de fazer esquecer o fracasso da contratação de Cavani.

Com a sombra do seu compatriota a segui-lo na sua travessia para Portugal, Darwin teria agora que provar que os 16 golos e 3 assistências em 32 jogos pelo Almería na época anterior justificavam os valores astronómicos pagos pelo Benfica, valores estes nunca antes vistos em Portugal. Toda esta pressão e responsabilidade recaíam nos ombros de um jovem de apenas 21 anos, sem experiência de primeira divisão e logo a jogar numa das principais ligas europeias.

Contudo , o começo de águia ao peito dificilmente poderia ter sido melhor. Em parceria com Waldschmidt na frente de ataque, Darwin era talvez a principal revelação, não só do campeonato, como também da Liga Europa, onde catapultou o Benfica para a fase a eliminar da competição. Consequentemente, ao mesmo tempo que o rendimento do avançado aumentava a cada jogo, surgiam também os rumores sobre uma possível transferência já no mercado de inverno, nomeadamente para o histórico Barcelona, da La Liga.

Infelizmente, tal como acontece em todos as boas histórias, o caminho do protagonista não é um mar de rosas. A derrota dos encarnados frente ao Boavista por 3-0 no Estádio do Bessa não só marcou o fim da invencibilidade no campeonato, como também precipitou o período de maior instabilidade dos últimos anos do clube.

Desportivamente, os níveis exibicionais dos comandados de Jorge Jesus caíram a pique, muito longe da fluidez atacante e da relativa segurança defensiva que caracterizaram o início do campeonato. Uma justificação para esta diferença abismal foi a aparente incapacidade do treinador do Benfica em selecionar um onze inicial permanente, implementando simultaneamente mudanças táticas no plantel que afetaram a confiança dos jogadores, em especial, a de Darwin.

Variando entre momentos em que ocupava a posição de titular e situações em que não saía do banco de suplentes, Darwin foi talvez o mais afetado pelas constantes alterações na forma de jogar da equipa, frequentemente obrigado a jogar como um nº9 mais clássico, estilo este completamente oposto e prejudicial àquilo que o uruguaio pode oferecer ao clube.

Darwin, à semelhança de um ponta-de-lança mais fixo na área adversária, é um atleta forte fisicamente e com uma velocidade impressionante, capaz perfeitamente de jogar na profundidade quando necessário. Mas, ao contrário do que Jorge Jesus pretendia na altura, o internacional uruguaio assenta-se melhor enquanto segundo avançado ou extremo esquerdo, criando assim espaços para os seus companheiros.

Ao contrário de Seferovic, por exemplo, Darwin não necessita de basear o seu jogo apenas no seu instinto goleador uma vez que é bastante mais evoluído tecnicamente do que o suíço. A sua distribuição de jogo está a anos luz das capacidades de qualquer outro avançado atualmente no plantel principal e, acima de tudo, a sua disponibilidade para pressionar a defesa contrária e ajudar nas transições defensivas tornam-no num elemento único em qualquer equipa do nosso campeonato.

Estas são caraterísticas que atualmente fazem de Darwin um dos imprescindíveis no onze inicial. Tal como foi demonstrado no brilhante jogo frente ao Barcelona na Liga dos Campeões, poucos conseguem ser mais perigosos a nível criativo do que Darwin no último terço do terreno, visto que não só permite uma maior liberdade de movimentos aos seus colegas de ataque, como também tem a capacidade de aparecer de rompante na grande área para finalizar.

Estas são qualidades que Darwin já possuía na época passada, apenas não teve a oportunidade de as demonstrar constantemente numa época em que o Benfica estava sofrer dentro e fora de campo. Aliada às prestações menos exuberantes, as lesões e a infeção de Covid-19  agravaram ainda mais o estatuto debilitado do uruguaio aos olhos dos adeptos encarnados, passando de favorito a «flop» em menos de meia época.

Esta é uma ideia completamente errada sobre Darwin, já que dificilmente 14 golos e 11 assistências em 44 jogos com a camisa vermelha e branca possam ser estatísticas tidas como negativas. Por outras palavras, numa época  caracterizada pela sua suposta inconsistência e pelas lesões, o uruguaio conseguiu mesmo assim ser dos atletas mais utilizados da equipa, contribuindo com um total de 25 envolvimentos para  golo.

Portanto, a fórmula para aproveitar o potencial de Darwin é aquela que deve ser aplicada a qualquer clube que tenha em mãos um possível gerador de lucro no futuro: dar tempo e espaço ao jogador para se adaptar a uma nova realidade; depositar constantemente confiança no seu talento e utilizá-lo num sistema que aproveite ao máximo as suas caraterísticas mais fortes. Darwin é a prova viva de que a teoria é válida. Com 6 golos em apenas 8 jogos na recente temporada, Darwin é claramente a evolução que o Benfica precisa depois do experimento «RDT» ( Raúl de Tomás ).

Resta agora saber se no final da época estaremos finalmente a falar do próximo ídolo da massa associativa benfiquista ou de mais um jovem futebolista condicionado pela grandeza do clube. A julgar pelas exibições do atacante até ao momento, o futuro parece risonho. Pois quando Darwin está bem, o Benfica está bem.

Fonte da imagem: Twitter Futebol365